Favorita. Sabe quando a gente cai na... Gabriel Parice Lopes

favorita.

Sabe quando a gente cai na real que aquela é a nossa pessoa favorita no mundo?

Não que fosse um mistério. Não que eu não soubesse antes. É mais como se, em algum momento, a vida começasse a apresentar as confirmações necessárias, as provas cabais de uma coisa que, no fundo, a gente já sabia. Como se o quebra-cabeça complexo que somos nós finalmente encontrasse uma peça que sempre pareceu ter sido feita exatamente para aquele espaço.

E o mais bonito é que essas confirmações nunca vêm em grandes acontecimentos.

Elas vem nas coisas mais simples do mundo.

Vem no cotidiano, naquele lugar onde ninguém está tentando impressionar ninguém, onde o amor não precisa fazer discurso porque está ocupado demais existindo. Vem numa mania que só aquela pessoa tem, numa maneira específica de rir, em uma frase que ela sempre fala, no jeito incomparável de enxergar alguma coisa. Vêm nos defeitos que, de tão únicos, acabam deixando de parecer defeitos. Naquelas pequenas particularidades que poderiam passar despercebidas para qualquer pessoa, mas que, para quem ama, se tornam quase uma impressão digital.

Você é assim pra mim.

E talvez seja justamente por isso que eu tenha tanta certeza.

Porque você costuma ter vários endereços. Está sempre em constante mudança, e não necessariamente geográfica. A vida te move, te transforma, te leva para lugares diferentes, muda algumas versões suas, acrescenta outras, tira algumas pelo caminho. Você pode estar na rua Joaquim de Paula 1129, na rua Matias Perez 183, na nossa própria Jorge Leite Vieira Home, ou até mesmo em alguma cidade perdida da Terra da Rainha.

E ainda assim, de algum jeito, continua sendo você.

Continua sendo aquela menina que eu aprendi a amar.

Não uma versão congelada no tempo, não alguém que precise permanecer exatamente como eu conheci para continuar sendo especial. Mas você, com todas as suas únicas e ímpares qualidades e defeitos. Até os defeitos eu amo. Talvez porque amar alguém de verdade seja justamente perceber que a pessoa não é uma coleção de características perfeitas, mas um conjunto inteiro, indivisível, de coisas que fazem dela quem ela é.

E acho que foi no cotidiano que eu mais entendi isso.

O momento que eu mais senti amor por alguém foi no cotidiano.

Foi ao acordar e ter café pronto.

Foi cozinhar junto ouvindo música.

Foi depois de limpar a casa inteira e deitar pra assistir.

Foi naquela sensação quase boba de olhar para o lado e pensar que, entre todas as possibilidades do mundo, era justamente aquela pessoa que estava ali comigo, dividindo uma manhã qualquer, uma cozinha qualquer, uma sala qualquer, uma música qualquer.

E talvez seja essa a maior prova de todas.

Porque grandes momentos podem ser confundidos com euforia. Viagens podem ser confundidas com felicidade. Declarações podem ser confundidas com paixão. Mas o cotidiano não mente.

TUDO TUDO que é amor nasce no cotidiano e tudo que não é amor, se desfaz no cotidiano.

É ali que a gente descobre quem realmente quer por perto.

Quando não existe viagem marcada, quando não existe ocasião especial, quando não existe nada para comemorar. Só existe uma terça-feira qualquer, uma casa para arrumar, alguma coisa para comer, uma música tocando baixo e duas pessoas dividindo o mesmo espaço.

É ali que o amor deixa de ser uma ideia bonita e vira presença.

E talvez seja por isso que você consiga estar em tantos lugares sem deixar de ser a mesma pessoa para mim.

Porque eu não aprendi a amar um endereço.

Eu aprendi a amar você.

E endereço nenhum consegue mudar isso.

Pode mudar a rua, a cidade, o país, a distância, a rotina, os planos, os mapas. Você pode estar em qualquer canto do mundo, construindo novas versões de si mesma, aprendendo coisas que eu ainda nem conheço, vivendo dias que eu talvez nunca veja.

Ainda assim, existe alguma coisa em você que permanece reconhecível para mim.

Aquela menina.

A menina das pequenas coisas.

Aquela que existe nos detalhes que ninguém mais percebe.

A pessoa que, sem fazer esforço, conseguiu ocupar um espaço que parecia ter sido desenhado para ela dentro de mim.

E talvez seja isso que significa encontrar a nossa pessoa favorita no mundo.

Não é descobrir alguém perfeito.

É descobrir alguém cuja imperfeição parece familiar.

Alguém que você reconhece mesmo quando ela muda.

Alguém que poderia atravessar o mundo inteiro, trocar de endereço quantas vezes quisesse, aparecer em outra cidade, em outro país, em outra fase da vida, e ainda assim fazer você pensar:

“É ela.”

Não porque você nunca teve dúvidas.

Mas porque, depois de tantas pequenas confirmações, você simplesmente não precisa mais delas.

Você sabe.

E se algum dia alguém me perguntasse onde exatamente mora a pessoa que eu aprendi a amar, talvez eu não soubesse responder.

Por isso eu vivo me perguntando porque é proibido pisar na grama?

Mas, no fundo, eu saberia que nenhum desses endereços seria suficiente.

Porque você não mora em nenhum deles.

Você mora no cotidiano.

Na memória do café pronto.

Na música enquanto a gente cozinha.

Na casa limpa depois de um dia inteiro de esforço.

No sofá onde duas pessoas simplesmente deitam e assistem alguma coisa sem precisar que o mundo aconteça.

E talvez seja justamente por isso que, não importa onde você esteja, eu continue sabendo exatamente quem você é para mim.

Minha peça.

Do meu quebra-cabeça complexo.

Minha pessoa favorita no mundo.

Aquela que a vida pode levar para qualquer endereço, mas que, de algum jeito, continua sempre encontrando o caminho de volta para o mesmo lugar.

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