Armadilha Um choro silencioso na cozinha... Bruna Marquezan Silv

Armadilha


Um choro silencioso na cozinha
Você a dois passos de mim
Mas a distância emocional que nos separa é tal qual o espaço entre os dois trópicos da Terra.
Você, trópico de Câncer, clima seco, terra firme, grandes desertos. Olhar de quem sabe que domina sem precisar se esforçar muito pra isso.
Eu, Capricórnio, chuvas, sol e calor, florestas e savanas. Entrega de alguém que não tem luz própria. Fotossíntese sempre foi o meu forte. Você é meu sol, estrela inconstante, distração brilhante que me faz voltar pra casa.
Eu voltei, mas era uma armadilha.
Nessa casa, nessa cozinha
Estou com você e estou sozinha
Te vejo apagar o cigarro, pressionando-o contra o cinzeiro. O mesmo fez comigo. Só restam as cinzas.
O pior é que sempre conheci suas artimanhas. Sabia que era um golpe e me permiti cair. E mais ainda: não me arrependo, porque parece que me vale o sofrimento quando te ouço mentir que me ama.
Você continua me olhando em silêncio, gelando-me a face com os olhos, enquanto eu, covarde, prefiro não encontrar os teus. Medo doentio que me impede de reagir a você.
Seus lábios, como que lendo meus pensamentos e ainda soltando a fumaça do cigarro que acabara de morrer, balbuciam que seu amor é verdadeiro como quem diz o preço de um produto do supermercado. Mentira. Você mente, eu acredito.
Então, diminuindo a distância entre os trópicos, eu cruzo a linha do Equador e te abraço, envolvendo meus braços quentes em seus ombros congelantes. Eclipse total. Você me escurece, mesmo assim, eu permaneço. E ainda não terminei de cair em sua armadilha.