Bruna Marquezan Silv
Vem, chega mais perto
Vem, chega mais perto.
Tira o casaco, tá calor. Pode colocar na maçaneta da porta.
Senta, fica à vontade, não repara a bagunça.
Aceita uma água? Um refresco?
Quer um cafezinho? Acabei de passar.
Vem, chega mais perto.
Eu não mordo. Eu beijo, abraço e faço cafuné.
Faço pilates e dança do ventre.
Também faço frango e lasanha de carne.
Faço a unha e massagem no pé.
Faço charme e faço amor.
Vem, chega mais perto.
Que prazer te conhecer!
Você é diferente e tão igual ao mesmo tempo.
É doce, é astuto. Tem segredos e verdades.
Você é um mistério fascinante.
Fala tudo e ao mesmo tempo não diz nada.
Já começo a sentir medo de você.
Medo de ser só um passo fora.
Alguém que entra, toma uma água e logo diz que tem que ir.
Fica mais um pouco, vai?
Vem, chega mais perto.
Olha só minhas mãos trêmulas
Pode tocá-las, elas esperam por isso
Pode até dar um beijo se quiser
Olha só o meu sorriso, ele é dado por você
Pode sorrir de volta que eu vou adorar
Pode dar um beijinho também
Pode se apaixonar, eu deixo.
Vem, chega mais perto.
Meus pecados
Eu nunca imaginei que uma noite tão perfeita
pudesse começar com uma taça de vinho.
Bebemos ao som de nossas músicas favoritas,
sentados frente a frente
num sofá que mal cabia nós dois,
embalados pelo olhar um do outro
e sem nos darmos conta de que não tínhamos brindado.
Que pecado perder a chance de brindar a nossa vida.
Que pecado não ter usado aquele vestido vermelho que você gosta tanto. Que pecado você ter me ganhado tão depressa.
Mas foram estes pecados que contradisseram os limites da criação e me trouxeram ao paraíso desta madrugada que acaba de começar.
Enquanto você dorme ao meu lado, eu me recuso a fechar os olhos.
O silêncio da noite me permite ouvir sua respiração,
ora lenta, ora apressada,
e me lembra de que essa mudança de ritmo nos acompanha em tudo:
nos beijos, nas brigas, nas tardes de caminhada,
e até nas músicas que a gente gosta de dançar
mesmo sendo péssimos em matéria de expressão corporal.
Reparo que você quase não se movimenta pela cama
e que não fez questão de virar pro outro lado;
logo me ocorre que você talvez saiba que eu estou te observando
e queira contribuir com minha doce redenção,
mas minhas suspeitas caem por terra quando você murmura algo
que eu não consigo entender e puxa o cobertor pra mais perto de si.
Fosse eu essa manta velha e me atreveria e roubar um beijo seu.
Mas essa manta nunca vai te ter como eu te tenho.
Ela nunca vai ver você sorrir enquanto dorme como eu estou vendo agora. Me pergunto se é comigo que está sonhando.
Talvez, no seu sonho, é você quem me observa dormir.
Mas eu continuo acordada.
Não posso perder nenhum momento do seu sono.
Queria viver essa noite pro resto da minha vida, deitada ao seu lado e sentindo seu coração bater.
Que pena que o tempo não ouve o meu clamor, já está amanhecendo e a sensação que eu tenho é de que esta madrugada durou apenas 10 minutos. Eu ficaria aqui pelo resto dos meus dias, juro.
Sei que jurar é um erro, mas são os pequenos pecados que vez ou outra me proporcionam esses 10 minutos com você.
Imprevisível
No silêncio da redoma deste quarto
Contemplo os jornais sobre a parede
As caixas espalhadas pelo chão
Valeu a pena mergulhar nesse feitiço?
A resposta da pergunta é quase um parto
Eu bebo pra aplacar a minha sede
Camuflando as ilusões do coração
Valeu a pena desejar um compromisso?
Você é a solidão que eu descarto
A lágrima que cai do olho verde
O beijo desprovido de paixão
Valeu a pena aceitar o seu sumiço?
O passado chegou como um infarto
Rompendo as fortalezas dessa rede
Fazendo-me soltar a tua mão
Valeu a pena me perder por causa disso?
Rabiscos
Num pedaço de papel em branco
Vou combinando palavras e compondo versos
Monto ideias e desmonto pensamentos
Analogia curiosa, não é mesmo?
Escrevo e não digo nada
Componho e expresso tudo
Contradições de uma mente sana
Ardente pela insanidade
Sedenta por um quê a mais de temperamento
Variando entre a tranquilidade do dia-a-dia e o fervor do final de semana
Sou eu, teoria
Sou eu, prática
Sou eu, silêncio
E desse silêncio me alimento
E desse alimento tenho voz
E dessa voz grito
E desse grito eu silencio novamente
E desse ciclo infinito eu tenho sempre
O roteiro dos meus versos
Sentido? Que sentido?
Me atrai o desconexo
E está tudo bem, obrigada.
No silêncio do meu quarto
É no silêncio do meu quarto que me transformo em palavras.
Às vezes, meu caro amigo, meu desejo não passa de aspirações literárias, poéticas talvez, românticas sempre.
Sou um romantismo em botão.
Tenho alma de poeta clássico e coração de donzela sonhadora.
Conheço os doces e amargos do sentimentalismo nato, e já fui provedora de todos eles.
E também, vez ou outra, quando me abasta a solidão cabível ao pungente e lascivo transcorrer do tempo, eu me ponho a combinar palavras,
formar versos, montar textos que quiçá traduzam o que sinto.
Tenho no papel um confidente perfeito, com quem compartilho angústias e alegrias sem medo de ser subjugada.
Ele apenas retém os meus sentidos, e isso já me basta.
Quero fazer conhecer a quem, um dia, porventura, venha ser leitor de meus escritos, que sou a mais sensível e suave das mulheres, me desmancho pelo toque, me recomponho pelo olhar, sou artista e plateia ao mesmo tempo; amante e amada.
Recebi do Criador a aflitiva missão de apenas amar, e dela não me queixo, nem me seria digno apontar um quê de reclamação.
É doce morrer de amor.
Poema sem nome (e sem fim)
Mais um dia chega e o mundo continua sua rotação comum.
As cores estão lá, do mesmo jeito, em seus devidos lugares.
Sou eu que estou em preto e branco.
Esgotada das coisas lá de fora, amedrontada pelas coisas daqui de dentro.
Tudo é uma questão de sabedoria e de deixar comigo os sentimentos que me afligem.
É isso, vamos viver no mundo da resignação.
Ou melhor, vamos falar as coisas erradas para as pessoas erradas. Pronto.
Essa é a solução do problema.
Ou talvez devêssemos ser mudos.
Mas será mesmo que as palavras ditas machucam mais que as que ficaram por dizer?
É um caso a ser pensado.
Entretanto, deixemos de lado as reflexões mundanas e foquemos no meu ego, objeto principal desde (des)pretencioso texto que nem nome tem. Não quero, caro leitor, lhe aborrecer com minhas considerações metódicas e até mesmo imparciais, frutos de hora e meia de reflexões e perguntas sem respostas.
É apenas que as palavras me conferem um certo entendimento da vida, que clama por ser melhor analisada.
Também não quero reescrever minha história, já que ela tem sido desempenhada com tanto sucesso (digo isso sem medo de errar). Só preciso apontar o lápis.
Um dia eu continuo esse texto.
