Suspicaz. Cheguei em casa e não acendi... Gabriel Parice Lopes
suspicaz.
Cheguei em casa e não acendi a luz.
Não porque estivesse com medo.
Era só que, depois de certo tempo, você começa a perceber que algumas coisas ficam mais nítidas no escuro.
Deixei a chave sobre a mesa, tirei o relógio, sentei no sofá e fiquei ali. Sem música. Sem televisão. Sem aquela necessidade moderna de preencher cada segundo com alguma coisa.
Naquela noite, entendi uma coisa estranha:
ninguém tinha armado uma tocaia para mim.
Eu mesmo tinha armado.
Durante anos, desconfiei de todo mundo. Li segundas intenções onde talvez só existissem palavras mal colocadas. Esperei a mentira antes da verdade. Guardei sentimentos como quem guarda munição. Quando alguém se aproximava demais, eu já imaginava a distância que teria de atravessar depois.
Chamava aquilo de experiência.
Era medo com um nome bonito.
O problema de viver esperando o tiro é que, depois de um tempo, você começa a atirar primeiro.
Não necessariamente nos outros.
Às vezes, atira em coisas que poderiam ter dado certo.
Em conversas que poderiam ter sido honestas.
Em pessoas que talvez tivessem ficado.
Em versões de mim mesmo que ainda sabiam confiar.
Percebi isso sentado no escuro.
A pior tocaia não é aquela preparada por quem quer te derrubar.
É aquela que você prepara para impedir alguém de chegar perto o suficiente para fazer isso.
E então veio a parte difícil.
Não havia vilão para culpar.
Não havia mensagem escondida, traição conveniente ou monstro esperando atrás da porta.
Havia apenas eu.
Um homem cansado, segurando a própria vida com tanta força que já não sabia se estava protegendo alguma coisa ou impedindo que ela respirasse.
E talvez essa tenha sido a primeira vez em muito tempo que eu não tentei fugir dessa conclusão.
Fiquei sentado.
Olhei para o escuro.
E deixei que ela doesse um pouco.
Porque talvez eu tenha passado tanto tempo tentando descobrir quem poderia me machucar que nunca parei para perceber quantas coisas eu estava machucando sozinho.
Na manhã seguinte, saí de casa.
Não estava curado.
Não estava transformado.
Não tinha aprendido nenhuma grande lição.
Só deixei a porta destrancada.
Talvez fosse pouco.
Mas, para alguém que passou tanto tempo construindo armadilhas para não ser ferido, aquilo já parecia quase uma revolução.
Porque talvez confiar não seja acreditar que ninguém vai me machucar.
Talvez seja simplesmente aceitar que, se eu passar a vida inteira tentando impedir qualquer possibilidade de dor, também vou acabar impedindo qualquer possibilidade de amor.
E eu já não queria viver assim.
Não queria mais confundir distância com segurança.
Nem silêncio com controle.
Nem medo com experiência.
Naquele dia, não prometi que nunca mais teria medo.
Só prometi que, da próxima vez que alguém chegasse perto, eu tentaria não preparar a tocaia antes de abrir a porta.
