Hourglass II Talvez algumas coisas não... Gabriel Parice Lopes
hourglass II
Talvez algumas coisas não terminem quando deixam de acontecer. Talvez terminem quando deixam de significar. E existe uma diferença enorme entre as duas.
Por um tempo, ele achou que distância fosse uma resposta. Que quilômetros, horários diferentes, novas rotinas e dias que não se encontravam mais fossem suficientes para colocar cada coisa no seu devido lugar. Como se a vida tivesse uma maneira própria de organizar aquilo que ficou para trás, empurrando algumas pessoas para uma parte da memória onde ninguém mais precisa mexer.
Só que a vida é péssima em respeitar lugares marcados.
Às vezes uma lembrança aparece no meio de um dia absolutamente comum e, sem pedir licença, muda a temperatura de tudo. Não porque exista uma vontade desesperada de voltar, mas porque certas pessoas deixam uma espécie de idioma dentro da gente. Depois delas, algumas coisas passam a ser sentidas de um jeito que não tinha nome antes.
E talvez seja isso que ainda exista.
Não uma espera.
Não uma promessa.
Muito menos a certeza de que dois caminhos precisam se encontrar novamente.
Apenas uma parte da história que nunca recebeu uma explicação definitiva.
Porque houve um tempo em que parecia fácil imaginar o amanhã. Havia planos que não precisavam ser anunciados porque já pareciam naturalmente incluídos na vida dos dois. O futuro não era uma coisa distante; era quase uma extensão do presente. E então, em algum momento, aquilo que parecia tão certo virou passado sem que ninguém conseguisse apontar exatamente o instante em que tudo mudou.
É estranho perceber isso depois.
A gente costuma procurar um culpado para o fim das coisas porque é mais confortável acreditar que alguma decisão, alguma palavra ou algum erro foi responsável por tudo. Mas existem histórias que simplesmente chegam a um ponto onde duas pessoas continuam sendo importantes e, ainda assim, não conseguem mais caminhar na mesma direção.
Isso talvez seja uma das coisas mais difíceis de aceitar.
Que alguém pode ter sido verdadeiro e ainda assim não ter ficado.
Que uma história pode ter sido bonita e ainda assim ter terminado.
Que o amor pode ter existido sem necessariamente saber sobreviver a todas as versões que vieram depois.
E talvez o tempo não tenha apagado nada.
Talvez ele só tenha feito uma coisa mais cruel: deu espaço para enxergar sem a urgência de antes.
Hoje, olhando de longe, ele consegue perceber que não sente falta apenas de uma pessoa. Sente falta de uma época em que algumas coisas pareciam possíveis. Daquela versão de si mesmo que ainda não sabia o quanto a vida mudaria. Das conversas que tinham outro peso. Da familiaridade de saber que existia alguém do outro lado sem precisar perguntar.
Mas existe algo curioso nisso.
Ele não gostaria de voltar no tempo.
Gostaria de saber o que aconteceria se pudesse encontrar aquela pessoa agora.
Sem tentar reconstruir nada.
Sem fingir que os anos não aconteceram.
Sem exigir que o passado volte a funcionar.
Só para descobrir o que sobra quando duas pessoas que já souberam tanto uma da outra se encontram depois de terem se tornado quase desconhecidas.
Talvez não sobrasse nada.
E talvez essa fosse a resposta mais honesta.
Ou talvez sobrasse aquele segundo estranho em que os olhos reconhecem antes da boca dizer qualquer coisa. Aquele pequeno silêncio em que toda uma história passa rápido demais para caber numa conversa.
Quem sabe.
Talvez algumas pessoas não voltem porque ainda existe algo entre elas.
Talvez voltem justamente para descobrir que não existe mais.
E existe uma liberdade estranha nisso também.
Porque nem toda porta precisa ser aberta novamente para provar que um dia foi importante.
Algumas só precisam continuar existindo em algum lugar da casa.
Não para que alguém volte.
Mas porque demolir completamente aquele cômodo seria mentir sobre quem você foi enquanto esteve lá.
Então ele segue.
Sem esperar uma mensagem.
Sem construir encontros imaginários.
Sem transformar saudade em destino.
Só carregando a estranha tranquilidade de quem finalmente entendeu que certas histórias não precisam continuar para terem sido enormes.
E se algum dia os caminhos se cruzarem outra vez, ele não sabe o que vai sentir.
Talvez nada.
Talvez tudo.
Talvez apenas aquela velha sensação de reconhecer alguém que a vida ensinou a chamar de passado.
Mas, dessa vez, ele não vai precisar perguntar o que aquilo significa.
Vai apenas olhar.
E deixar que o momento diga, sozinho, tudo aquilo que os dois nunca conseguiram dizer quando ainda havia tempo.
