“Ao avesso da pele” Ao avesso da... Silasoliveira13

“Ao avesso da pele”

Ao avesso da pele,
somos todos feitos do mesmo susto
quando a dor chega,
do mesmo brilho quando o amor acontece,
do mesmo medo de não caber.

Os olhos são iguais.
Choram da mesma forma,
reconhecem beleza do mesmo jeito,
buscam abrigo quando o mundo aperta.

O coração também não muda de cor.
Ele acelera,
falha,
espera.

E ainda assim,
o caminho muda.

Do lado de fora, a pele decide
o que o mundo permite.
Decide quem pode correr sem ser suspeito,
quem pode errar sem pagar caro,
quem é ouvido antes mesmo de falar.

É estranho perceber
que os mesmos gestos
ganham sentidos opostos
dependendo do tom da pele que os veste.

O mesmo silêncio pode ser respeito
ou ameaça.
O mesmo olhar pode ser curiosidade
ou culpa.

Não é o sentir que separa
é o olhar de fora
que escolhe não ver igual.

Ao avesso da pele,
ninguém nasce grande,
Ninguém nasce menor.
Mas o mundo insiste
em vestir alguns com medo
e outros com privilégio.

A injustiça não está no corpo.
Está na leitura equivocada
que fazem dele.

Talvez um dia
aprendamos a enxergar
para além da superfície,
a escutar antes de julgar,
a permitir que todos
tenham o mesmo direito
ao erro, ao afeto, à existência.

Porque se rasgarmos a pele
só em pensamento, só em verdade
o que aparece é igual.

E dói do mesmo jeito
quando é negado.