Senhor, te falo agora não como quem se... João Pedro Brinholi
Senhor, te falo agora não como quem se acusa diante de uma multidão, mas como quem sussurra sozinho em um quarto escuro, onde só tu me ouves.
Se eu chegasse ao céu e não te encontrasse lá, saberia que estou no inferno.
No entanto, tu não me deixaste à porta; chamaste-me de filho antes mesmo que eu soubesse pronunciar o teu nome.
Estranho é meu coração: peço perdão com uma mão e afasto o Perdoador com a outra.
Mas não é esta estranheza que me define diante de ti; é a tua paciência. As pedras clamariam o teu nome se eu me calasse, e quantas vezes me calei! Ainda assim, não me tratas como servo relutante, mas como filho que volta coxeando, vestido com a melhor túnica antes mesmo de terminar o discurso ensaiado de arrependimento.
Não é vergonha que quero guardar de mim, Senhor, mas espanto: que um coração tão inconstante tenha sido escolhido para ser amado com sangue.
Que eu, que tantas vezes te esqueci, nunca tenha sido esquecido por ti.
