Coleção pessoal de jpbrinholi
Deus me vê
Deus me vê. Eu sei disso e ainda assim finjo que não sabes de tudo, como se um coração pudesse esconder-se de quem o formou.
Mas não posso. Não há canto em mim que o Senhor desconheça, por mais que eu insista em cobri-lo.
O que não compreendo é que, vendo tudo, ainda me desejas. Me desejas como estou agora, não no que eu poderia ser um dia. Este que sou agora, quebrado como estou, é o que queres.
Como Adão, que temeu porque se viu nu diante de ti, e cobriu-se de folhas que nada escondiam. Também eu sou assim. Teço as minhas próprias folhas, e sei que és tu quem as vê murchar antes mesmo de eu terminar de costurá-las.
E quando a vergonha tenta afastar-me de ti, corro; mas para onde correria eu, que não estivesses lá primeiro?
Esperei que fosses embora. Tu ficaste. Sempre ficaste.
Não sei o que o amor contém, nem tenho palavra que o alcance por inteiro. Só sei que és tu quem o define, e que ainda que eu tente me esconder de quem me formou, nunca encontrei lugar algum onde já não estivesses primeiro esperando por mim.
Senhor, te falo agora não como quem se acusa diante de uma multidão, mas como quem sussurra sozinho em um quarto escuro, onde só tu me ouves.
Se eu chegasse ao céu e não te encontrasse lá, saberia que estou no inferno.
No entanto, tu não me deixaste à porta; chamaste-me de filho antes mesmo que eu soubesse pronunciar o teu nome.
Estranho é meu coração: peço perdão com uma mão e afasto o Perdoador com a outra.
Mas não é esta estranheza que me define diante de ti; é a tua paciência. As pedras clamariam o teu nome se eu me calasse, e quantas vezes me calei! Ainda assim, não me tratas como servo relutante, mas como filho que volta coxeando, vestido com a melhor túnica antes mesmo de terminar o discurso ensaiado de arrependimento.
Não é vergonha que quero guardar de mim, Senhor, mas espanto: que um coração tão inconstante tenha sido escolhido para ser amado com sangue.
Que eu, que tantas vezes te esqueci, nunca tenha sido esquecido por ti.
Se Deus não me oferecesse céu, nem perdão, muito menos salvação, ainda assim eu O amaria?
Talvez a minha fé não passe de um mero interesse; talvez eu ame apenas um Deus que criei à minha imagem e semelhança.
E, se este é o motivo pelo qual O amo, que diferença há entre a minha fé e a fé dos pagãos?
Pois também eles se curvam diante daquilo que esperam receber.
Amar a Deus apenas por aquilo que Ele concede talvez seja, antes de tudo, amar a mim mesmo.
Então descubro, com vergonha, que muitas das minhas orações não eram orações, mas contratos silenciosos, nos quais eu exigia do Eterno a garantia da minha felicidade.
Eu não queria Deus.
Queria apenas a certeza de que nada de mau me aconteceria.
Queria que a Sua vontade coincidisse, sempre, com os meus desejos.
E chamei de fé aquilo que talvez fosse apenas o temor do sofrimento.
Ó Senhor, faze que a minha resposta seja como a de Jó:
"Ainda que Ele me mate, nEle esperarei."
Um cristão verdadeiro é uma pessoa estranha em todos os sentidos. Ele sente um amor supremo por alguém que ele nunca viu; conversa familiarmente todos os dias com alguém que não pode ver; espera ir para o céu pelos méritos de outro; esvazia-se para que possa estar cheio; admite estar errado para que posa ser declarado certo; desce para que possa ir para o alto; é mais forte quando ele é mais fraco; é mais rico quando é mais pobre; mais feliz quando se sente o pior. Ele morre para que possa viver; renuncia para que possa ter; doa para que possa manter; vê o invisível, ouve o inaudível e conhece o que excede todo o entendimento
Tenho guardada no meu peito uma chave chamada promessa que poderá abrir todas as fechaduras do castelo da dúvida.
