“Tratado Breve Sobre a Falta de... G.C Falho
“Tratado Breve Sobre a Falta de Retorno”
Não sofri por amor,
sofri por excesso de expectativa —
essa doença elegante
que acomete os que pensam demais
e pedem pouco.
Acreditei na reciprocidade
como quem acredita em promessas políticas:
não por ingenuidade,
mas por cansaço de duvidar.
Dei tempo,
dei espaço,
dei prioridade.
Recebi silêncio —
que, diga-se, também é uma resposta,
embora os educados insistam em chamá-la de confusão.
Chamaram-me intenso.
Palavra curiosa.
Serve tanto para o fogo
quanto para quem se queima por ficar perto demais.
Observei, com método,
que quem menos entrega
é sempre quem mais exige compreensão.
E que o desinteresse,
quando bem vestido,
passa por distração.
Perdi.
Não o amor — isso é exagero literário.
Perdi tempo,
que é mais grave.
Hoje, quando lembro,
não sinto saudade.
Sinto estudo.
O erro, visto à distância,
ganha a utilidade de lição
— e perde o direito de doer.
Aprendi, enfim,
que algumas pessoas não nos deixam
porque nunca chegaram.
E que o maior engano
não foi amar demais,
mas insistir
em esperar retorno
de quem só sabia receber
