G.C Falho
*ASAS*
Houve um tempo
em que eu acreditava
que o destino de uma árvore
era morrer no inverno.
Porque eu ainda não conhecia
a primavera.
Então você chegou.
Não como chegam as tempestades,
que arrancam galhos
e deixam lembranças violentas.
Você chegou como chega a manhã.
Sem pedir licença.
Sem fazer barulho.
E, de repente, descobri
que dentro de mim havia janelas
que nunca tinham sido abertas.
Foi estranho.
Passei tantos anos
aprendendo a ser muralha,
que esqueci
que algumas casas
foram feitas para ter varanda.
Você não me ensinou a amar.
Seria injusto dizer isso.
O amor já morava aqui.
Apenas dormia.
Você só acendeu a luz.
E eu vi.
Vi um homem
que escrevia versos escondido da própria voz.
Vi mãos fortes
capazes de tocar o mundo
sem precisar apertá-lo.
Vi que coragem
também podia ser delicadeza.
E que firmeza
não precisava vestir armadura.
Depois...
A vida fez aquilo que a vida faz.
Mudou os caminhos
sem pedir nossa opinião.
Por muito tempo
achei que a dor era você indo embora.
Hoje sei.
A dor era acreditar
que você tinha levado comigo
a parte mais bonita de mim.
Mas ela ficou.
Quietinha.
Esperando que eu percebesse.
Levei anos.
Anos para entender
que ninguém leva embora
aquilo que ajudou a revelar.
As asas
não pertenciam ao vento.
Pertenciam ao pássaro.
Você apenas apontou para elas.
Hoje ainda penso em você.
Há dias em que seu sorriso
atravessa minha memória
como um raio de sol
atravessa uma casa antiga.
Não para machucar.
Mas para iluminar
a poeira que o tempo deixou.
E eu sorrio.
Não porque deixou de doer.
Mas porque finalmente compreendi
que algumas pessoas
não entram em nossa vida
para permanecer.
Entram
para nos apresentar
a alguém.
No meu caso...
A mim.
Agora sigo.
Não correndo.
Não fugindo.
Não esperando.
Sigo como quem conhece a estrada.
Porque aprendi
que o amor nunca foi um lugar.
Era a forma
como eu caminhava
quando me sentia inteiro.
E hoje...
Mesmo sem sua mão na minha,
continuo andando.
Não para longe de você.
Mas para perto
de quem eu descobri ser.
Obrigado por não ter sido o fim da minha história.
Obrigado por ter sido o capítulo em que descobri que eu também sabia escrever.
“Tratado Breve Sobre a Falta de Retorno”
Não sofri por amor,
sofri por excesso de expectativa —
essa doença elegante
que acomete os que pensam demais
e pedem pouco.
Acreditei na reciprocidade
como quem acredita em promessas políticas:
não por ingenuidade,
mas por cansaço de duvidar.
Dei tempo,
dei espaço,
dei prioridade.
Recebi silêncio —
que, diga-se, também é uma resposta,
embora os educados insistam em chamá-la de confusão.
Chamaram-me intenso.
Palavra curiosa.
Serve tanto para o fogo
quanto para quem se queima por ficar perto demais.
Observei, com método,
que quem menos entrega
é sempre quem mais exige compreensão.
E que o desinteresse,
quando bem vestido,
passa por distração.
Perdi.
Não o amor — isso é exagero literário.
Perdi tempo,
que é mais grave.
Hoje, quando lembro,
não sinto saudade.
Sinto estudo.
O erro, visto à distância,
ganha a utilidade de lição
— e perde o direito de doer.
Aprendi, enfim,
que algumas pessoas não nos deixam
porque nunca chegaram.
E que o maior engano
não foi amar demais,
mas insistir
em esperar retorno
de quem só sabia receber
“O Encontro dos Oceanos”
Há dois mares dentro de ti, —
um de fogo, outro de silêncio.
Ambos azuis, ambos infinitos,
mas quando se tocam,
o mundo se parte em correntezas.
O primeiro, o da superfície,
fala com voz firme, veste poder,
seduz o destino com olhos de aço.
Ele construiu castelos de controle,
para que ninguém visse o menino cansado
que só queria descansar dentro de um abraço.
O outro, o que mora no fundo,
carrega lembranças em forma de cinza.
É o mar que sabe o nome da dor,
e ainda assim sussurra esperança.
Nele vive o homem que ama,
que sonha com paz, com o simples,
com o toque que não cobra,
com o olhar que o reconhece.
Quando esses mares se encontram,
ninguém vê a linha —
só sente o peso da mistura.
É o ponto onde o guerreiro
larga a espada e encontra o espelho,
onde a pantera entende
que também nasceu pra deitar na sombra,
onde Te Ka
lembra que já foi Te Fiti.
E nesse instante,
entre o rugido e o suspiro,
surge o homem real —
feito de cinza e de luz,
de amor e de abismo.
Ele não quer mais provar nada.
Quer apenas existir
sem precisar de plateia.
Quer sentir, sem precisar se esconder.
Porque agora ele entende:
a força que o move
não é o ferro,
é o coração queimando
por ainda querer ser inteiro.
