A Revolução dos Cansados Há um... Paulo H Salah Ad din
A Revolução dos Cansados
Há um momento em que o homem percebe que passou metade da vida tentando convencer desconhecidos de alguma coisa.
Convencer o patrão de que trabalhava demais.
Convencer a família de que fazia o possível.
Convencer os amigos de que estava bem.
Convencer a sociedade de que era útil.
No fim, ninguém entrega medalha para quem morre de exaustão.
Então você começa a perder certos talentos. O talento de discutir. O talento de justificar. O talento de parecer indignado o tempo todo.
Descobre que o mundo continua girando com ou sem a sua opinião. Continua fabricando heróis descartáveis, mártires de fim de semana e revolucionários que voltam cedo para casa porque na segunda tem reunião.
A verdade?
A maior parte das guerras é travada por homens que nunca apertaram um gatilho. A maior parte das virtudes é defendida por gente que jamais abriu mão de um conforto. E a maior parte dos discursos serve apenas para esconder o medo absurdo de admitir que ninguém sabe por que está aqui.
Que tédio.
Cansei de carregar bandeiras que, no primeiro vento, alguém troca por outras. Cansei de lutar batalhas que terminam patrocinadas por quem vende as armas.
Prefiro uma mesa de bar.
Uma mulher inteligente rindo do meu cinismo.
Uma motocicleta velha engolindo quilômetros sem destino.
Uma cerveja gelada enquanto a cidade continua fingindo que está construindo o futuro.
Talvez eu esteja errado.
Mas desconfio que viver sempre foi isso: desperdiçar um pouco de tempo com aquilo que faz o coração bater mais devagar.
O sistema odeia quem descobre isso.
Ele suporta fanáticos.
Tolera miseráveis.
Até admira os ambiciosos.
Mas não sabe o que fazer com alguém que simplesmente encolhe os ombros, acende um cigarro, abre outra cerveja e diz:
— Hoje, não.
Porque quem para de perseguir a cenoura deixa de obedecer ao chicote.
E talvez essa seja a única revolução que ainda não conseguiram vender.
Não espere um final bonito.
A liberdade nunca chega montada num cavalo branco.
Ela aparece numa terça-feira qualquer, com olheiras, uma geladeira quase vazia, um aluguel vencendo e uma estranha paz por finalmente não precisar provar absolutamente nada a ninguém.
Tem gosto de derrota para quem olha de fora.
Mas, por dentro...
Tem gosto de vida.
