Não é falta de carácter, nem... Ivonaldo Gilguete

Não é falta de carácter, nem desinteresse, muito menos mesquinhez. É a vida adulta.

Na vida adulta, as relações já não nascem da mesma forma que na nossa fase embrionária. Na infância e adolescência, tornamo-nos amigos sem termos nada para oferecer além da nossa presença. Criávamos laços para viver aventuras, partilhar sonhos e crescer juntos. Nessa fase, nem o ter nem o ser eram condições para uma amizade; bastava existirmos.

Na vida adulta, a realidade muda. As pessoas aproximam-se, muitas vezes, porque existe algo que as une: o mesmo ambiente, a mesma profissão, os mesmos objetivos ou algum valor que um pode acrescentar ao outro. Não significa que as amizades adultas sejam falsas, mas, na maioria das vezes, antes da amizade existe um ponto de encontro, uma utilidade, uma afinidade ou uma oportunidade de convivência. É dessa convivência que, por vezes, nasce uma verdadeira amizade.

Por isso, é tão importante preservar as amizades da nossa fase embrionária. São essas pessoas que nos escolheram quando não havia títulos, dinheiro, estatuto ou reconhecimento. Escolheram-nos antes das luzes, antes dos holofotes, antes dos fatos elegantes e dos privilégios. Permaneceram porque encontraram valor em quem somos, e não naquilo que possuímos.

Essas amizades são um lembrete de que existem pessoas capazes de amar a nossa essência, mesmo quando a vida não sorri, quando os planos falham e quando nada parece dar certo. São raras e, por isso, merecem ser cuidadas como um dos maiores patrimónios da vida.

— Gilguete