Ela tinha aquele tipo raro de presença... Gabriel Parice Lopes
Ela tinha aquele tipo raro de presença que bagunça alguém antes mesmo do primeiro toque.
Não pela beleza apenas, embora existisse beleza nela de sobra. Era outra coisa. O jeito como ocupava o espaço sem parecer forçar nada. Como se carregasse luz naturalmente, como se tivesse nascido para aquecer lugares frios sem perceber o efeito que causava. E talvez o que mais me destruiu tenha sido justamente isso: ela nunca fazia ideia do que provocava em mim.
Principalmente quando ria.
Porque ela ria com os olhos.
E Deus… eu me perdia completamente ali.
Não era um sorriso ensaiado, desses que as pessoas aprendem a mostrar para o mundo. Era verdadeiro. Vivo. Os olhos dela se fechavam levemente como se o corpo inteiro participasse daquele instante, e toda vez que acontecia eu sentia alguma parte minha cedendo sem resistência. Como maré puxada pela lua, inevitável. Eu tentava manter a compostura, continuar constante, continuar sendo quem sempre fui… mas ela me olhava sorrindo daquele jeito e tudo em mim esquecia como permanecer intacto.
Ela foi a primeira pessoa que me fez querer mergulhar sem medo da profundidade.
Porque eu nunca fui raso. Só nunca tive permissão para afundar de verdade. A vida inteira esperaram de mim equilíbrio, calma, presença. E eu aprendi a ser isso. Aprendi a esconder a correnteza embaixo da superfície tranquila. Mas ela… ela parecia enxergar o oceano inteiro sem que eu precisasse dizer uma palavra.
E ao invés de fugir, ela ficou.
Talvez tenha começado ali.
Ou talvez tenha começado antes, no exato dia em que conheci ela.
Meu aniversário.
Até hoje isso me atravessa de um jeito estranho. Porque parece impossível não enxergar algum significado nisso tudo. Como se depois de tantos desejos feitos em silêncio, o universo tivesse decidido responder da única forma capaz de me desmontar completamente: colocando ela na minha frente.
E ela chegou exatamente como o sol invade um quarto escuro pela manhã.
Sem pedir licença.
Sem esforço.
Mudando tudo apenas por existir.
O mais bonito é que, apesar de toda a luz que carregava, existia cansaço nela também. Um cansaço escondido nos detalhes, nas pausas, no jeito que às vezes parecia carregar o peso do próprio brilho. E comigo ela descansava. Eu sentia isso. Sentia no jeito que a voz dela diminuía, no jeito que os ombros relaxavam, como se pela primeira vez ela não precisasse iluminar nada.
Ela podia apenas existir.
E eu amava isso nela mais do que qualquer outra coisa.
Enquanto isso, ela despertava em mim partes que estavam adormecidas há tempo demais. Partes intensas. Profundas. Vivas. Como se pela primeira vez alguém tivesse coragem de atravessar minha calmaria até alcançar o que existia no fundo do mar.
E eu deixei.
Porque desejar ela nunca pareceu escolha.
Parecia destino acontecendo devagar, na minha frente, até o momento em que percebi que já era tarde demais para voltar a ser quem eu era antes daqueles olhos rindo para mim.
