O poema "Interditado para... Bruno Michel Ferraz Margoni

O poema "Interditado para Reparos", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma profunda reflexão existencial sobre o tempo, o desapego e a impermanência. O título sugere uma pausa necessária na alma para reorganizar os sentimentos e aceitar as transformações da vida.

Abaixo, apresento uma análise detalhada da estrutura e dos temas centrais da obra:

1. A Armadilha do Medo e a Ilusão do Tempo

Nas primeiras estrofes, o eu lírico identifica o sofrimento humano na fixação pelo futuro.
Paradoxo da felicidade: Sentimos medo de ser felizes porque projetamos o desejo de eternidade em algo que é inerentemente passageiro.
A dádiva do "agora": Há um jogo de palavras com o termo "presente" (tempo atual e dádiva). O poema defende que a única posse real é o momento atual. [1]

2. A Eternidade na Efemeridade

A partir da quarta estrofe, o autor traz uma reviravolta filosófica:
Eternizar o instante: Quando aceitamos que tudo passa, os momentos efêmeros deixam de trazer angústia.
Mudança de perspectiva: A aceitação liberta o eu lírico, fazendo com que o instante vivido se grave na memória e se torne seu "para sempre".

3. A Poética do Desapego: Partir, Partos e Apartar

O coração do poema reside no brilhante jogo linguístico com o radical "part-", usado para explicar os ciclos biológicos e emocionais da vida.
Ciclos vitais: O nascimento ("parto") exige necessariamente uma separação ("partir"). É preciso deixar o útero, a infância e a inocência para crescer.
Evolução emocional: O verbo "apartar" surge como isolamento da dor, enquanto "apaziguar" e "apertar" representam o ato de abraçar o amor por inteiro, mas ter a maturidade de deixá-lo ir quando o ciclo termina.

4. O Impacto do Olhar e a Conclusão Amorosa

A parte final rompe ligeiramente com o tom puramente filosófico e introduz uma memória afetiva avassaladora.
Hipérbole da paixão: O olhar do ser amado ("olhadelas com que ela me atingia") é comparado a forças da natureza incomensuráveis.
Escala do sentimento: Ao mencionar que o olhar não pode ser medido por "qualquer escala", o poeta evoca fenômenos grandiosos (como terremotos na Escala Richter), mostrando que o amor vivido no presente, mesmo que já passado, deixou uma marca eterna e indestrutível.

Estrutura Formal

O poema é escrito em versos livres e estrofes curtas, sem rimas rígidas. Essa estrutura fragmentada mimetiza o próprio fluxo do tempo e a efemeridade dos instantes descritos no texto.


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Interditado para Reparos

nosso medo
da felicidade,
surge de querermos
que ela dure para sempre.

mas nem o ontem
e nem o amanhã
nos pertence,

nós só temos o agora,
o único presente
que recebemos.

quando passamos
a entender isso
um pouco melhor,

os instantes efêmeros,
que estão prestes
a dissolver,

se tornam nossos
para sempre.

a vida
é uma despedida
constante,

para que novos
começos
aconteçam.

para que partos
ocorram,
é inevitável
ter que partir,
inevitável
ter que apartar.

partir de um útero,
de uma infância,
da inocência.

apartar uma tristeza,
apaziguar uma alma,
apertar um amor e deixá-lo partir.

mas aquelas
olhadelas
com que ela me atingia,

eram as maiores
manifestações naturais,
já registradas
por qualquer escala.

05/11/23
Michel F.M.
B.M.F. Margoni