Crônica Campeonato Nacional da... SANDRO SANSÃO

Crônica


Campeonato Nacional da Sobrevivência


Se o brasileiro colocasse na política metade da paixão que coloca no futebol, talvez o Congresso tivesse comentarista esportivo, VAR e até torcida organizada fiscalizando votação.


Imagine a cena:


— Foi pênalti ou não foi?


— Não sei. Mas a reforma tributária passou sem ninguém perceber.


Enquanto isso, milhões de especialistas em escalação discutem durante semanas se o lateral deveria jogar mais avançado, mas não sabem o nome do vereador que ajudaram a eleger.


No futebol, o cidadão conhece a tabela de cor, a artilharia completa, os cartões recebidos, os confrontos históricos e até a previsão de chuva para o dia da partida.


Já na própria carreira...


— Como está seu plano para os próximos cinco anos?


— Que plano?


— O profissional.


— Ah... achei que você estava falando do campeonato.


E assim segue a vida.


O brasileiro acorda cedo, enfrenta ônibus lotado, trânsito engarrafado, fila, burocracia, boleto, carnê, prestação, taxa, imposto e mais uma coleção de surpresas que parecem surgir diretamente da criatividade nacional.


Trabalha de segunda a segunda para, no final do mês, descobrir que o salário entrou na conta apenas para fazer uma visita rápida.


Mal chega e já vai embora.


As contas fazem festa.


O dinheiro nem participa.


Mas seria injusto dizer que o povo vive apenas de sofrimento.


O brasileiro possui uma habilidade rara: consegue fabricar felicidade com matéria-prima quase inexistente.


Faz churrasco com pouco carvão.


Faz festa com pouco dinheiro.


Faz amizade na fila.


Faz piada da própria desgraça.


E quando a vida aperta, ainda encontra força para sorrir.


Talvez seja por isso que os governantes gostem tanto de oferecer distrações. Afinal, um povo entretido reclama menos.


Desde os tempos antigos existe uma fórmula famosa: pão e circo.


Por aqui, às vezes falta o pão, mas o circo nunca atrasa.


Quando não é futebol, é novela.


Quando não é novela, é reality show.


Quando não é reality show, aparece alguma polêmica da semana para ocupar a mente de todo mundo.


Enquanto isso, os anos passam silenciosamente.


Os cabelos embranquecem.


Os sonhos envelhecem.


As prestações se multiplicam.


E a aposentadoria parece um personagem de ficção.


Ainda assim, existe algo admirável nisso tudo.


Mesmo carregando dificuldades que derrubariam muita gente, o brasileiro continua acreditando no amanhã.


Continua ajudando o vizinho.


Continua dividindo o pouco que tem.


Continua encontrando beleza nas pequenas coisas.


No café compartilhado.


Na conversa da calçada.


No gol marcado aos quarenta e cinco do segundo tempo.


No abraço sincero.


Na família reunida.


Talvez a verdadeira riqueza nunca tenha estado nas contas bancárias.


Talvez ela esteja justamente nessa capacidade extraordinária de sobreviver sem perder completamente a alegria.


Mas confesso uma coisa.


Se um dia o brasileiro resolver acompanhar sua educação, sua profissão e a política com a mesma paixão que acompanha uma final de campeonato, o mundo inteiro vai precisar rever seus conceitos.


Porque aí deixaremos de disputar apenas a taça da sobrevivência.


E passaremos a jogar a grande final do desenvolvimento.


Até lá, seguimos em campo.


Entre boletos e esperanças.


Entre trabalho e sonhos.


Entre migalhas e sorrisos.


Porque desistir nunca foi o esporte favorito do brasileiro.


Autor: Sandro Sansão da Silva Costa