No país que normalizou a molecagem,... Alessandro Teodoro

No país que normalizou a molecagem, o que não falta são moleques de estimação chamados de Vossa Excelência.
Há algo profundamente sintomático em uma sociedade na qual a solenidade dos cargos parece, muitas vezes, servir de esconderijo para a pequenez dos comportamentos.
Conferiu-se pompa à autoridade, mas nem sempre se exigiu grandeza de quem a exerce.
E assim, entre títulos honoríficos, privilégios institucionais e discursos empolados, a “imaturidade” ganha tratamento de Estado e a irresponsabilidade aprende a usar terno e gravata.
Sociologicamente, esse fenômeno revela uma perigosa inversão de valores: quando o prestígio social passa a depender mais da posição ocupada do que da qualidade moral das atitudes, a hierarquia substitui o mérito, a reverência ocupa o lugar do respeito e a bajulação se disfarça de lealdade.
O resultado é uma cultura de submissão na qual questionar os poderosos parece muito mais grave do que tolerar seus desmandos.
Filosoficamente, a questão é ainda mais inquietante: o que, afinal, confere dignidade a uma autoridade?
O título ou a conduta?
O poder de exigir obediência ou a capacidade de agir com responsabilidade?
A resposta deveria ser elementar: nenhum cargo transforma mediocridade em virtude, assim como nenhuma toga, faixa, mandato ou tratamento cerimonioso é capaz de conferir caráter a quem não o possui.
O problema não está na existência das instituições, mas na sua apropriação por aqueles que confundem autoridade com superioridade, imunidade com impunidade e respeito institucional com licença para o comportamento aquém do infantilizado.
Instituições verdadeiramente republicanas não existem para proteger vaidades pessoais, mas para servir à sociedade, limitar o poder e assegurar que ninguém esteja acima da responsabilidade pública.
E talvez a maior tragédia de uma democracia não seja apenas a presença de indivíduos despreparados em posições de poder.
Mas a existência de uma sociedade que se acostuma com isso relativiza o absurdo, transforma o constrangimento em entretenimento e, por conveniência ou devoção, passa a tratar a molecagem como se fosse personalidade.
Afinal, “Vossa Excelência” é um pronome de tratamento, não um certificado de grandeza.
O respeito devido ao cargo jamais deveria significar a renúncia ao senso crítico diante de quem o ocupa.
Porque uma sociedade madura não se ajoelha diante de títulos: exige coerência de quem os ostenta.
E uma democracia saudável não fabrica Moleques de Estimação; forma cidadãos, cobra responsabilidades e compreende que autoridade sem caráter é apenas poder fantasiado de dignidade.
