⁠Tão periclitante quanto não pensar,... Alessandro Teodoro

⁠Tão periclitante quanto não pensar, é autorizar o outro a fazê-lo por nós. Há uma forma particularmente perigosa de alienação que não se manifesta pela ausênci... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Tão periclitante
quanto não pensar,
é autorizar o outro
a
fazê-lo por nós.


Há uma forma particularmente perigosa de alienação que não se manifesta pela ausência de ideias, mas pela renúncia silenciosa à capacidade de construí-las.


É quando deixamos de interrogar o mundo, de confrontar nossas próprias certezas e de elaborar juízos para simplesmente acolher, reproduzir e defender aquilo que alguém pensou em nosso lugar.


Não porque nos convenceu, necessariamente, mas porque nos poupou do Desconforto de Pensar.


Vivemos tempos em que a opinião parece ter adquirido mais importância do que a reflexão, a convicção se sobrepõe à compreensão e a adesão a determinados discursos passou a funcionar como uma espécie de Identidade Social.


Pensar, nesse cenário medonho, tornou-se quase um gesto de insubordinação.


Afinal, quem pensa por conta própria corre o risco de discordar até dos seus pensamentos, contrariar expectativas, perder pertencimentos e, sobretudo, descobrir que algumas das verdades que sustentavam suas certezas talvez não passem de convenções convenientemente assimiladas.


A terceirização do pensamento, entretanto, não acontece apenas por ingenuidade ou falta de repertório.


Muitas vezes, é uma escolha afetiva, social e até moral.


Há quem prefira a segurança de uma opinião emprestada à responsabilidade de uma conclusão própria.


Há quem confunda fidelidade com obediência intelectual, pertencimento com alinhamento e convicção com a repetição disciplinada de palavras alheias.


E há, ainda, quem transforme líderes, influenciadores, ideologias, instituições e até grupos de afinidade em tutores permanentes da própria consciência.


O problema não está em aprender com o outro, tampouco em reconhecer a legitimidade de quem sabe mais.


O conhecimento é, por natureza, uma construção coletiva, atravessada por experiências, diálogos e heranças culturais.


O perigo começa quando a escuta deixa de ser instrumento de ampliação da consciência e se converte em mecanismo de submissão; quando a referência substitui a autonomia; quando a autoridade dispensa o questionamento e a conveniência passa a valer mais do que a lucidez.


Talvez uma das maiores tragédias da contemporaneidade seja justamente essa: dispormos de tantos meios para acessar informações e tão pouca disposição para transformá-las em conhecimento; termos infinitas possibilidades de expressão e, paradoxalmente, cada vez mais dificuldade de sustentar um pensamento que não tenha sido previamente autorizado por alguma tribo ideológica.


Porque pensar exige coragem.


Exige suportar dúvidas, rever posições, reconhecer contradições e admitir que nem sempre estaremos do lado certo de nossas próprias convicções.


Pensar é aceitar a possibilidade de mudar sem sentir que estamos traindo a nós mesmos.


É compreender que a inteligência não se mede pela velocidade com que respondemos, mas pela disposição de questionar aquilo que parecia inquestionável.


No fundo, não há liberdade verdadeiramente plena onde a consciência depende de procuração.


Quem entrega ao outro a tarefa de pensar também lhe concede, pouco a pouco, o poder de estabelecer o que deve sentir, temer, rejeitar e defender.


E, quando percebe, já não distingue suas próprias convicções das ideias que lhe foram cuidadosamente instaladas.


Afinal, a ignorância pode nos privar de respostas, mas a renúncia ao pensamento pode nos privar até das perguntas.


E talvez seja justamente aí que a Submissão Intelectual alcance sua forma mais sofisticada: quando alguém já não precisa nos convencer de nada, porque conseguimos transformar em nossas até as ideias que nunca tivemos a oportunidade de pensar.


Pensar por si mesmo não significa pensar sozinho, tampouco pensar contra todos.


Significa apenas não entregar a ninguém a última palavra sobre aquilo que nossa própria consciência ainda precisa examinar.


Afinal, uma mente verdadeiramente livre não é aquela que dispensa influências, mas aquela que não se ajoelha diante delas.