⁠Num mundo onde quase tudo se polariza... Alessandro Teodoro

⁠Num mundo onde quase tudo se polariza — Discurso de Ódio se confunde com Liberdade de Expressão, Arrogância com Bravura, Confusos com Multifacetados e a Ceguei... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Num mundo onde quase tudo se polariza — Discurso de Ódio se confunde com Liberdade de Expressão, Arrogância com Bravura, Confusos com Multifacetados e a Cegueira com a Sensibilidade, é melhor ficar com Nostradamus…


Nostradamus sempre disse, e continua dizendo, e eu não quero dizer o que Nostradamus disse, para não dizerem que sou injusto.


Afinal, vivemos tempos em que a verdade precisa apresentar documentos, enquanto a mentira circula com credenciais de autoridade; em que a ignorância se veste de convicção, a intolerância reivindica o direito de ser respeitada e a incapacidade de compreender o outro é frequentemente anunciada como uma virtude intelectual.


Parece que perdemos a capacidade de distinguir as coisas não porque elas tenham deixado de ser distintas, mas porque nos tornamos excessivamente interessados em defender aquilo que nos convém.


Já não importa tanto o que algo é, mas o nome que conseguimos atribuir-lhe para torná-lo aceitável.


E assim, por uma espécie de alquimia moral às avessas, transformamos defeitos em qualidades, vícios em princípios e limitações em bandeiras.


Há quem confunda falar alto com ter razão, ferir com ser corajoso e discordância com perseguição.


Há também quem chame de sensibilidade a incapacidade de suportar a realidade e de liberdade a licença para desrespeitar a dignidade alheia. .


No meio de tudo isso, a lucidez parece ter se tornado uma inconveniência, a ponderação uma fraqueza e o silêncio reflexivo uma suspeita de cumplicidade.


Talvez o maior problema do nosso tempo não seja a existência de opiniões diferentes, mas a crescente incapacidade de reconhecer que nem toda opinião merece ser elevada à condição de verdade, nem toda indignação representa justiça e nem toda certeza é sinal de conhecimento.


O pensamento verdadeiramente livre não precisa transformar o diferente em inimigo, tampouco necessita humilhar para se afirmar.


A inteligência não se mede pela quantidade de certezas que alguém consegue ostentar, mas pela coragem de questioná-las.


E a grandeza de uma pessoa talvez esteja menos na habilidade de vencer discussões do que na disposição de não perder a humanidade durante elas.


Por isso, volto a Nostradamus.


Não necessariamente porque suas profecias sejam dignas de confiança, mas porque, diante de um mundo tão empenhado em reinterpretar o evidente, até o mistério parece oferecer alguma vantagem: pelo menos ninguém precisa fingir que o compreendeu.


E há uma ironia particularmente desconcertante nisso tudo: talvez não estejamos vivendo o fim dos tempos, mas o tempo em que o fim do discernimento passou a ser confundido com o começo de uma nova consciência.


Nostradamus que me perdoe, mas há coisas que nem mesmo uma profecia deveria precisar explicar.


E há verdades tão evidentes que, para não sermos acusados de injustiça, o melhor talvez seja apenas deixá-las diante dos olhos de quem ainda consegue enxergar.


Porque, no fim das contas, não é a realidade que se torna absurda quando deixamos de compreendê-la.


Somos nós que nos tornamos reféns do absurdo quando já não queremos reconhecê-la.