A VIDA É A MORTE INVERTIDA Talvez a... andresaut

A VIDA É A MORTE INVERTIDA

Talvez a vida seja só a morte invertida.

Já pensou nisso?

A gente nasce chorando, enquanto todo mundo sorri. E morre deixando os outros chorando, quando talvez seja a nossa vez de sorrir.

É uma falta de combinação danada!

A vida, aliás, é uma senhora muito engraçada. Nos dá os primeiros dentes só para depois tirá-los. Nos ensina a caminhar para, lá adiante, nos oferecer uma bengala. Primeiro nos faz perder o sono por amor e, depois de certa idade, por vontade de fazer xixi.

E ainda dizem que ela não tem senso de humor!

Talvez morrer seja apenas nascer do outro lado. Uma espécie de parto ao contrário, sem parteira, sem fraldas e, espero, sem precisar aprender matemática novamente.

O curioso é que passamos a infância querendo crescer, a juventude querendo conquistar o mundo e a velhice querendo encontrar os óculos que estão na nossa cabeça.

No fundo, a vida é uma grande brincadeira de esconder. Ela esconde o futuro, a gente procura a felicidade e, quando finalmente encontra, descobre que ela estava sentada ao nosso lado, tomando café, esperando um pouco de atenção.

A morte, coitada, ficou com a fama de vilã. Mas talvez seja apenas uma funcionária do tempo, encarregada de fechar a porta depois que a última visita foi embora.

E o amor?

Ah, o amor é o único sujeito que entra sem pedir licença e se recusa a sair, mesmo quando a casa já não existe.

Por isso, desconfio que a vida e a morte sejam duas páginas do mesmo livro. Uma escrita da esquerda para a direita, a outra da direita para a esquerda. E Deus, que deve ter um humor extraordinário, fica lá em cima, virando as páginas e torcendo para que a gente entenda a história.

Eu, por via das dúvidas, não tenho pressa de chegar ao último capítulo.

Ainda quero abraçar muita gente, dar risada das minhas próprias bobagens, beijar sem olhar o relógio e descobrir por que a saudade consegue morar num coração tão pequeno sem jamais reclamar de falta de espaço.

Porque, se a vida é mesmo a morte invertida, prefiro continuar do lado de cá, onde o café é quente, o abraço é apertado e ainda há tempo para dizer eu te amo.

E quando chegar a hora de virar a página, espero que alguém descubra que eu não fui embora.

Apenas passei para o outro lado da folha.

Porque quem viveu amando não termina. Vira lembrança. E lembrança é a maneira que a vida encontrou de não aceitar a morte.