LAGAR Há uma cadência que não pede... Ysrael SolerIsrael Soler
LAGAR
Há uma cadência que não pede licença.
Ela entra no seio quando a dor se instala
e começa a marcar o tempo com passos secos.
Não é música, é batida antiga,
um flagelo baixo que ensina o corpo
a sobreviver no automático.
É a cadência que cadencia a dor,
aflorando os instintos mais banais.
É a cadência que inflige o amor
no animal que acorda sem laço,
sem corda, sem dono e sem lugar,
quando a alma se cansa de explicar
no conforto e também no lagar.
Ela não pergunta se você está pronto.
Só reduz o mundo a miudezas urgentes:
comer, se proteger, não sentir demais.
O pensamento sobra,
a sutileza dobra,
fica só o essencial bruto
que a dor espreme e evoca.
É a cadência que cadencia a dor,
aflorando os instintos mais banais.
É a cadência que inflige o amor
no animal que acorda sem laço,
sem corda, sem dono e sem lugar,
quando a alma se cansa de explicar
no conforto e também no lagar.
Às vezes essa batida salva.
Às vezes ela aprisiona.
Transforma o seio em território alheio
e o outro em ameaça ou presa.
Tudo o que era complexo
vira impulso estranho e sem escolha,
carregado de um anseio sem nome.
É a cadência que cadencia a dor,
aflorando os instintos mais banais.
É a cadência que inflige o amor
no animal que acorda sem laço,
sem corda, sem dono e sem lugar,
quando a alma se cansa de explicar
no conforto e também no lagar.
E mesmo quando a dor diminui,
a cadência ainda ecoa por um tempo.
Como se o seio demorasse
a lembrar que pode voltar
a ser mais do que sobrevivência.
Mosto esmagado no quintal ainda escuro,
raposinhas no silêncio,
tecidos no varal
ainda tremendo com o vento da dor.
É a cadência que cadencia a dor,
aflorando os instintos mais banais.
É a cadência que inflige o amor
no animal que acorda sem laço,
sem corda, sem dono e sem lugar,
quando a alma se cansa de explicar
no conforto e também no lagar.
