O mundo jamais daria voz aos Idiotas... Alessandro Teodoro

O mundo jamais daria voz aos Idiotas — não fosse pelo
privilégio de descobri-los.
Há algo profundamente revelador no tempo em que vivemos: nunca se falou tanto, nunca se publicou tanto e, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil distinguir a lucidez do ruído.
A palavra, que outrora exigia algum compromisso com o pensamento, tornou-se acessível a quase todos, mas nem todos compreenderam que ter voz não significa, necessariamente, ter algo a dizer.
A sociedade contemporânea redemocratizou os meios de expressão, mas não redemocratizou a consciência.
E talvez resida aí uma das maiores contradições do nosso tempo: confundimos Liberdade de Expressão com relevância intelectual, visibilidade com inteligência, popularidade com sabedoria e repercussão com profundidade.
O indivíduo já não precisa construir um pensamento para conquistar uma plateia; basta produzir uma provocação, uma frase de efeito, alimentar uma indignação ou oferecer à multidão aquilo que ela deseja ouvir, ainda que seja desprovido de qualquer compromisso com a verdade.
O Idiota, nesse cenário medonho, deixou de ser apenas uma figura marginalizada, escondida nas esquinas da ignorância.
Ganhou palco, megafone, seguidores e, por vezes, até a condição de referência.
Não porque tenha desenvolvido alguma extraordinária capacidade de pensar, mas porque descobriu que, numa sociedade sedenta por espetáculos, a superficialidade também pode ser um produto altamente consumível.
Mas seria injusto atribuir exclusivamente a ele a responsabilidade por sua ascensão.
Afinal, nenhuma voz encontra ressonância sem algum ouvido disposto a escutá-la.
A ignorância que se exibe encontra terreno fértil na curiosidade que não questiona, na indignação que não reflete e na multidão que prefere o conforto das certezas à inquietação das perguntas.
O espetáculo precisa de atores, mas depende, sobretudo, de espectadores.
Há, portanto, uma dimensão sociológica nesse fenômeno que merece reflexão: talvez o problema não seja apenas a proliferação dos Idiotas, mas a transformação da própria sociedade em um ambiente que recompensa a estupidez com atenção e a arrogância com prestígio.
Quando o conhecimento exige esforço, mas a ignorância oferece entretenimento imediato, a disputa pela atenção torna-se profundamente desigual.
Filosoficamente, talvez estejamos diante de uma inversão muito perigosa: o homem deixou de ser reconhecido pela grandeza do que pensa e passou a ser reconhecido pelo número daqueles que o seguem.
Já não importa tanto compreender o mundo, mas parecer capaz de explicá-lo.
Não importa investigar a verdade, mas defender com veemência uma opinião.
E, nessa confusão entre convicção e conhecimento, muitos transformam a própria incapacidade de compreender em uma espécie de superioridade moral.
O mais curioso é que a inteligência, quase sempre, carrega consigo a consciência dos próprios limites.
Quem pensa profundamente aprende a duvidar, ponderar, rever e, sobretudo, reconhecer aquilo que ainda não sabe.
A ignorância, ao contrário, costuma ser excessivamente segura de si.
Não precisa de evidências quando possui certezas; não necessita de argumentos quando dispõe de convicções fabricadas; não procura aprender quando acredita já ter compreendido tudo.
Talvez por isso o silêncio de algumas pessoas seja infinitamente mais eloquente do que a verborragia de outras.
E não se trata de defender uma aristocracia do pensamento, tampouco de reivindicar o direito de poucos à palavra.
A Liberdade de Expressão é uma conquista de todas as civilizações, mas a Responsabilidade Intelectual deveria ser uma conquista individual.
Todos têm o direito de falar; ninguém, entretanto, deveria confundir esse direito com a obrigação dos outros de levar a sério tudo aquilo que se diz.
No fundo, o verdadeiro privilégio do nosso tempo não é descobrir quem são os idiotas.
É possuir discernimento suficiente para não se deixar conduzir por eles.
Porque a estupidez alheia, quando reconhecida, pode até provocar espanto; quando admirada, compartilhada e reproduzida, torna-se um fenômeno coletivo.
E talvez a tragédia maior não esteja no idiota finalmente ter encontrado uma voz, mas em uma sociedade inteira ter perdido, pouco a pouco, a capacidade de reconhecer a diferença entre uma voz e um pensamento.
Afinal, o mundo não se torna mais inteligente porque todos podem falar.
Torna-se mais humano quando aprendemos a escutar, mais livre quando aprendemos a questionar e mais sábio quando compreendemos que nem toda opinião merece reverência, nem toda certeza merece crédito e nem toda voz, por mais amplificada que seja, carrega consigo a dignidade de uma ideia.
Porque, no grande teatro da existência, o problema nunca foi o ignorante subir ao palco.
O problema começa quando a plateia se levanta para aplaudi-lo e, depois, ainda decide chamá-lo de mestre.
