Essa Polarização rachou nosso país... Alessandro Teodoro

Essa Polarização rachou nosso país ao meio: metade se vale dos Artistas — a outra metade do nome de Deus.
E, no meio desse abismo, dessa Polarização Medonha, permanece o povo — aquele que acorda cedo, enfrenta o peso da existência, enterra seus mortos, alimenta seus filhos e, muitas vezes, não percebe que está sendo convocado a odiar justamente aqueles com quem compartilha as mesmas dores, as mesmas necessidades e os mesmos sonhos.
De um lado, há quem transforme Artistas em oráculos, como se a fama concedesse autoridade moral, superioridade intelectual ou infalibilidade política.
Do outro, há quem vista o discurso religioso com a armadura da verdade absoluta, como se só pronunciar o santo nome de Deus em alto e bom tom fosse suficiente para legitimar qualquer opinião, justificar qualquer intolerância ou santificar qualquer projeto de poder.
Uns confundem aplausos com sabedoria; outros, convicções pessoais com vontade divina.
E assim, entre palcos e púlpitos, entre celebridades e pregadores, vamos perdendo a capacidade de pensar sem pedir autorização a um ídolo e de questionar sem temer a condenação de um tribunal moral.
O problema, entretanto, não se resume aos artistas, tampouco à fé.
A arte pode ser uma forma sublime de denunciar as injustiças, revelar as contradições humanas e dar voz àquilo que a sociedade insiste em silenciar.
A religião, quando vivida em sua dimensão mais profunda, pode ser fonte de consolo, solidariedade, esperança e transformação.
Ambas podem iluminar a existência.
Ambas também podem ser instrumentalizadas quando deixam de servir à consciência humana e passam a servir aos interesses de quem deseja controlá-la.
A tragédia começa quando o indivíduo abdica da própria capacidade de julgamento e terceiriza a consciência.
Quando já não pergunta se algo é justo, mas apenas a quem interessa.
Quando deixa de avaliar um argumento por sua consistência e passa a julgá-lo pela identidade de quem o pronuncia.
Quando a verdade deixa de ser uma busca e se transforma numa propriedade exclusiva do grupo ao qual pertence.
É nesse instante que a política deixa de ser o espaço do debate democrático e se converte numa disputa de pertencimento.
Já não importa tanto compreender o mundo, mas provar que o outro está errado.
Já não basta defender uma ideia: é preciso desumanizar quem a contesta.
A divergência, que deveria ser parte constitutiva da democracia, transforma-se em hostilidade; o adversário, que deveria ser reconhecido como cidadão, passa a ser tratado como inimigo.
A sociologia nos ajuda a compreender essa tragédia: o ser humano não busca apenas explicações para a realidade; busca também pertencimento, reconhecimento e segurança.
Em tempos de incerteza, as identidades coletivas oferecem abrigo emocional.
O grupo nos diz quem somos, a quem devemos lealdade e contra quem devemos nos proteger.
O preço dessa proteção, porém, pode ser terrível: para continuar pertencendo, aprendemos a silenciar dúvidas, a justificar incoerências e a condenar nos outros aquilo que toleramos nos nossos.
Aos poucos, a opinião política deixa de ser uma posição circunstancial e se transforma numa identidade quase sagrada.
Criticar o líder passa a significar trair a comunidade.
Questionar o discurso do pregador torna-se, para alguns, uma afronta à própria fé.
Discordar do artista admirado é confundido com ignorância ou ressentimento.
E o pensamento crítico, que deveria nos libertar das prisões intelectuais, acaba sendo tratado como uma ameaça à nossa própria existência social.
Talvez seja essa uma das mais dolorosas ironias do nosso tempo: vivemos cercados de informação, mas nem sempre conseguimos pensar com autonomia.
Temos acesso a inúmeras vozes, mas escutamos quase exclusivamente aquelas que confirmam nossas certezas.
As redes sociais ampliam nossos horizontes e, paradoxalmente, também podem estreitar nossa percepção de mundo.
Alimentam-se de nossas indignações, recompensam nossas certezas e nos oferecem, a cada instante, novos motivos para desprezar quem pensa diferente.
Nesse ambiente medonho, o ódio torna-se uma mercadoria rentável.
A indignação produz audiência, a provocação gera engajamento e a mentira, quando agrada às convicções de uma multidão, pode viajar muito mais depressa do que a verdade.
Há quem descubra que a melhor maneira de conquistar seguidores não seja apresentar soluções, mas fabricar inimigos.
Porque um povo ocupado em odiar o outro raramente encontra tempo para perguntar quem lucra com sua divisão.
Enquanto discutimos a moral dos artistas e a legitimidade dos religiosos, há questões concretas que continuam exigindo respostas: as desigualdades que limitam destinos antes mesmo de as pessoas poderem escolhê-los.
A educação que ainda não alcança todos com a mesma qualidade; a violência que interrompe vidas; a fome que humilha; a corrupção que corrói a confiança pública; a precariedade dos serviços essenciais e a indiferença diante do sofrimento alheio.
Essas feridas abertas não perguntam em quem votamos, que música ouvimos ou em que templo oramos.
A fome não distingue ideologias.
A doença não consulta convicções partidárias.
A miséria não exige credenciais religiosas para se instalar.
A morte não respeita as fronteiras imaginárias que construímos entre nós.
A realidade, em sua brutalidade, insiste em nos lembrar que somos muito mais semelhantes do que os discursos de ódio gostariam de admitir.
Filosoficamente, talvez precisemos reaprender uma lição elementar: nenhuma convicção merece ser colocada acima da dignidade humana, e nenhuma autoridade deveria estar acima do exame da razão.
A Liberdade de Pensar não consiste em repetir aquilo que desejamos ouvir, mas em suportar o desconforto de examinar as próprias certezas.
A Maturidade Intelectual começa quando compreendemos que podemos estar errados, que nossos afetos podem nos enganar e que a pessoa de quem discordamos talvez enxergue uma parte da realidade que ainda não conseguimos perceber.
Pensar é um exercício de Humildade Intelectual.
Exige a coragem de questionar os nossos, de reconhecer contradições no campo que defendemos e de não transformar a honestidade intelectual numa virtude reservada aos nossos.
E quanto a Deus?
Continua sendo Deus!
Se a fé pretende nos aproximar do que há de mais elevado na experiência humana, deveria também nos tornar mais sensíveis à fragilidade do próximo.
Afinal, de que vale pronunciar o nome do sagrado com reverência se tratamos o semelhante com desprezo?
De que serve erguer as mãos em oração se as usamos para apontar, humilhar e excluir?
Que espécie de espiritualidade é essa que se preocupa mais em vencer discussões do que em aliviar sofrimentos?
A fé que precisa da humilhação alheia para se sentir vitoriosa talvez tenha se afastado de sua própria essência.
E quanto à arte?
Continua sendo arte!
Se a arte tem o poder de nos emocionar, provocar e revelar dimensões da experiência humana que a linguagem cotidiana não alcança, por que reduzi-la à condição de instrumento de adoração política?
O artista pode ser brilhante em sua criação e equivocado em suas opiniões.
Pode produzir uma obra extraordinária sem possuir respostas para os dilemas da sociedade.
Sua fama não o torna dono da verdade, assim como sua condição humana não anula o valor de sua arte.
Precisamos abandonar a necessidade infantil de transformar pessoas em santos ou demônios.
Ninguém deveria ser obrigado a concordar integralmente com alguém para reconhecer suas qualidades, assim como ninguém deveria ser impedido de criticar uma figura admirada por receio de ser expulso de seu grupo.
A liberdade exige discernimento.
E discernimento significa reconhecer que a realidade é complexa demais para caber nas simplificações confortáveis de nossas paixões.
Talvez o maior drama do Brasil não seja simplesmente estar dividido entre a esquerda e a direita, entre progressistas e conservadores, entre os que invocam artistas e os que invocam Deus.
O drama mais profundo é estarmos perdendo a disposição de enxergar a humanidade do outro para além do rótulo que lhe atribuímos.
Um país não se rompe apenas quando suas instituições entram em conflito.
Ele também se rompe nas mesas de família, nas amizades desfeitas, nas conversas interrompidas e nos afetos sacrificados em nome de convicções que deveriam orientar a vida, não destruí-la.
Quando um pai deixa de reconhecer a dignidade do filho por causa de uma escolha política, quando amigos transformam décadas de convivência em motivo de hostilidade, quando pessoas passam a desejar o sofrimento de seus compatriotas apenas porque pertencem a outra seara ideológica, alguma coisa muito essencial já foi perdida.
A política, que deveria organizar a vida coletiva, passa a colonizar a intimidade.
E o debate público invade os espaços onde o amor, a escuta e a convivência deveriam resistir às diferenças.
Não se trata de defender uma neutralidade artificial diante das injustiças, nem de fingir que todas as ideias possuem o mesmo valor moral.
Há discursos que precisam ser confrontados, mentiras que precisam ser desmentidas e práticas que precisam ser responsabilizadas.
A tolerância democrática não exige passividade diante do intolerável.
Exige, isto sim, que combatamos ideias e comportamentos sem abandonar os princípios que tornam possível uma sociedade livre.
Porque a verdadeira coragem não consiste em gritar mais alto que o adversário, mas em defender a verdade mesmo quando ela contraria os interesses do nosso próprio grupo.
Talvez seja hora de deixarmos de perguntar qual lado possui os artistas mais virtuosos ou os religiosos mais fervorosos e começarmos a perguntar qual lado, em cada situação concreta, está disposto a defender a Dignidade Humana, a Justiça, a Liberdade, a Solidariedade e a Verdade.
Esses valores não pertencem exclusivamente a partidos, igrejas, movimentos culturais ou personalidades públicas.
Não deveriam ser propriedade de nenhuma tribo.
São compromissos que precisam ser avaliados pelas atitudes, não apenas proclamados em discursos.
No fundo, a pergunta que nos resta é desconcertantemente simples: de que adianta conquistar o país inteiro se, para isso, precisarmos perder uns aos outros?
A história não se comove com a intensidade de nossas paixões, mas registra as consequências de nossas escolhas.
E talvez as futuras gerações não nos julguem pela quantidade de vezes que defendemos nossos líderes, celebramos nossos ídolos ou pronunciamos o nome de Deus, mas pela maneira como tratamos aqueles que não compartilhavam de nossas crenças.
Um dia, os artistas envelhecerão, os discursos políticos perderão sua força, os líderes serão substituídos e as disputas de hoje parecerão distantes.
Os palanques serão desmontados, os templos continuarão suas histórias, as canções encontrarão novos ouvidos e o tempo, indiferente às nossas certezas, seguirá fazendo o seu trabalho.
Mas permanecerão as consequências do que fizemos uns aos outros.
Por isso, talvez a tarefa mais urgente e necessária do nosso tempo não seja escolher entre a Arte e a Fé, entre a Razão e a Espiritualidade, entre a Liberdade e a Tradição.
Seja, antes, recuperar a capacidade de pensar sem idolatrar, acreditar sem perseguir, discordar sem odiar e defender princípios sem abandonar a humanidade.
Que os Artistas continuem fazendo arte.
Que os Religiosos continuem exercendo sua fé.
Que os Filósofos continuem interrogando o mundo.
Que os Cientistas continuem investigando a realidade.
E que a Política volte a ser aquilo que jamais deveria ter deixado de ser: um instrumento para tornar possível a vida em comum, apesar de nossas diferenças.
Porque nenhum país será verdadeiramente livre enquanto seus cidadãos precisarem odiar uns aos outros para sentir que pertencem a algum lado, algum lugar.
E nenhuma sociedade será verdadeiramente humana enquanto confundir a fidelidade a um grupo com a obrigação de desprezar todos os outros.
No fim, não é a ausência de diferenças que salva uma nação, mas a capacidade de conviver com elas sem transformar o semelhante em inimigo.
Talvez o Brasil não precise escolher entre os que se valem dos Artistas e os que se valem do nome de Deus.
Talvez precise, urgentemente, aprender a não se valer de nenhum deles para justificar a própria incapacidade de pensar, de dialogar e de reconhecer no outro um ser humano tão complexo, tão contraditório e tão digno quanto nós mesmos.
Afinal, se a arte não nos torna mais sensíveis, se a fé não nos torna mais compassivos e se a política não nos torna mais comprometidos com o bem comum, de que nos servem tantas canções, tantas orações e tantas bandeiras?
Um país começa a se reconstruir quando seus cidadãos deixam de perguntar quem merece ser odiado e voltam a perguntar o que precisa ser transformado.
E talvez a primeira rachadura a ser reparada não esteja no mapa do Brasil, nem nas instituições, nem nos discursos dos poderosos.
Talvez esteja dentro de cada um de nós, no exato lugar em que o orgulho se recusa a ouvir, a intolerância se disfarça de convicção e o medo de estar errado se torna maior do que o desejo de encontrar a verdade.
É ali, nesse território íntimo e silencioso, que começa a reconstrução de uma nação.
Não quando todos pensarem da mesma maneira, mas quando ninguém mais precisar desumanizar o outro para continuar acreditando naquilo em que acredita.
