Tenho sentido inveja. E talvez essa seja... Carolina Marinho
Tenho sentido inveja. E talvez essa seja uma das confissões mais difíceis que já fiz a mim mesma.
Não invejo qualquer pessoa que seja amada. Invejo aquelas que, mesmo depois de terem causado dores, machucado pessoas e desejado o mal, continuam cercadas de afeto. É difícil compreender como algumas pessoas parecem receber tanto amor enquanto outras, que nunca desejaram tanto mal a ninguém, experimentam uma solidão tão profunda.
Não me sinto inferior a elas. O que sinto é uma revolta diante de uma injustiça que não consigo explicar. Como se o mundo tivesse esquecido de fazer alguma distinção entre quem é bom e quem é ruim.
Mas talvez minha inveja esconda uma tristeza ainda maior: a vontade de também ser escolhida.
Tenho família, tenho pessoas que me amam, mas sinto falta de amigos. Daquelas amizades em que não precisamos medir palavras, calcular disponibilidade ou disputar espaço. Pessoas que simplesmente queiram estar conosco. Que se lembrem de nós. Que sintam nossa falta.
E o mais contraditório é que, quando essas oportunidades aparecem, muitas vezes não tenho energia para aproveitá-las. Quero ir, quero viver, quero conhecer lugares, mas alguma coisa em mim parece sempre cansada demais.
Tenho passado tanto tempo administrando as necessidades dos outros que, às vezes, já não sei muito bem o que fazer com as minhas.
Não consigo assistir a uma série, ir ao cinema, ouvir minhas músicas preferidas ou encontrar prazer nas pequenas coisas. Tudo parece ter perdido um pouco da cor. Sinto tristeza, um vazio que não sei explicar e uma saudade de uma versão de mim que parece ter ficado em algum lugar do caminho.
Há pouco mais de um mês, perdi uma amiga. E talvez tenha perdido também uma das poucas pessoas com quem eu conseguia compartilhar a vida de uma maneira leve.
Alguém com quem tomar café, ouvir rock, sair, levar as meninas ao teatro. Alguém com quem os pequenos programas não precisavam de grandes explicações.
Agora, quando penso em fazer essas coisas, percebo o quanto gostaria de ter alguém ao meu lado.
Tenho uma lista de pequenas promessas que fiz a mim mesma. Quero fazer uma trilha ouvindo minhas músicas preferidas, tomar um café na Confeitaria Colombo, comprar uma roupa bonita e terminar a noite em um barzinho de rock, ouvindo música e tomando uma taça de vinho.
Não são grandes sonhos. São pequenos pedaços de vida que gostaria de experimentar.
Mas até esses desejos parecem perder um pouco do encanto quando penso que não tenho com quem compartilhá-los.
Talvez eu não queira uma multidão. Talvez queira apenas algumas pessoas. Duas ou três presenças verdadeiras. Gente com quem eu possa ser inteira, sem precisar ser forte, útil, disponível ou necessária.
Quero ter amigos, mas estou cansada de tentar. Quero companhia, mas me falta energia para construir vínculos. Quero viver coisas bonitas, mas sinto falta de alguém que também queira vivê-las comigo.
E, no meio de tudo isso, existe uma pergunta que volta silenciosamente:
Em que momento deixei de viver a minha própria vida para me tornar alguém que apenas administra a vida de todo mundo?
Não sei responder.
Só sei que sinto falta de mim. Sinto falta de rir sem motivo, de ouvir uma música e sentir alguma coisa, de me arrumar porque quero sair, de ter histórias para contar e de esperar ansiosamente por um encontro.
Sinto falta de sentir.
E, apesar de toda essa tristeza, ainda existe em mim uma mulher que deseja conhecer lugares, tomar café, ouvir rock, caminhar por uma trilha e brindar à vida.
Espero que ela não tenha se perdido.
Espero que esteja apenas cansada.
E que, em algum momento, eu consiga encontrá-la novamente.
