⁠Se a Partida dos que amamos não... Alessandro Teodoro

⁠Se a Partida dos que amamos não fosse tão Dolorosa, talvez quiséssemos fazer baderna no céu. Talvez quiséssemos habitá-lo antes do Tempo de Deus — e sem ao men... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Se a Partida dos que amamos não fosse tão Dolorosa, talvez quiséssemos fazer baderna no céu.


Talvez quiséssemos habitá-lo antes do Tempo de Deus — e sem ao menos nos dar ao trabalho de construí-lo.


Talvez a saudade nos parecesse menos absurda se pudéssemos atravessar os limites do invisível, arrombar as portas da eternidade e exigir de Deus, em voz alta, a devolução de quem o nosso coração ainda insiste em procurar.


Talvez fizéssemos perguntas inconvenientes aos anjos, contestássemos os decretos do Altíssimo e reclamássemos, sem qualquer reverência, que o céu não deveria ter o direito de nos parecer tão distante quando abriga justamente aqueles que nos fazem tanta falta.


Porque há dores que não sabem rezar em silêncio.


Há ausências que transformam os joelhos em pedras, os olhos em fontes e a fé em uma espécie de luta íntima entre aquilo em que acreditamos e aquilo que não conseguimos suportar.


Há dias em que a alma não deseja compreender os mistérios da providência; deseja apenas um abraço.


Não quer explicações sobre a eternidade, quer ouvir novamente uma voz conhecida, reconhecer um sorriso, tocar uma mão e experimentar, ainda que por um instante, a mentira mais doce que a morte nos roubou: a de que certas despedidas jamais aconteceriam.


E quem poderia condenar um coração que, de tanto amar, se revolta contra a própria finitude?


Talvez a nossa vontade de fazer baderna no céu seja apenas outra maneira de confessar que ainda não aprendemos a conviver com a imensidão de uma ausência.


Afinal, quando alguém que amamos parte, não é somente essa pessoa que deixa de estar entre nós.


Parte também de uma versão do mundo, uma geografia de afetos, uma coleção de pequenos hábitos que, sem percebermos, havíamos transformado em eternidade cotidiana.


A cadeira continua no mesmo lugar, mas já não é apenas uma cadeira.


A mesa permanece posta, mas alguma coisa falta à sua volta.


O telefone continua funcionando, mas há números que se tornam santuários de uma impossibilidade.


E a casa, por mais que conserve as paredes, os móveis e os retratos, aprende a falar uma língua que somente os enlutados compreendem: a linguagem de tudo aquilo que permanece sem poder voltar.


É nesse lugar que a teologia encontra o seu maior desafio.


Porque falar de Deus diante da morte é fácil quando a morte está longe.


É relativamente simples defender a soberania divina quando não somos nós que precisamos enterrar um pedaço da própria história.


É confortável falar sobre os desígnios celestes quando o céu ainda não nos parece o endereço de alguém cuja ausência nos desorganiza.


Mas, quando a despedida chega, a fé deixa de ser apenas aquilo que professamos e passa a ser aquilo que tentamos sustentar enquanto desabamos.


Talvez seja por isso que tantos salmos tenham nascido de perguntas, e não de respostas.


Talvez seja por isso que Jó tenha discutido com o silêncio, que Jeremias tenha chorado sobre os escombros e que Jesus, diante do túmulo de Lázaro, não tenha oferecido imediatamente uma explicação sobre a morte, mas tenha chorado.


Sim, Jesus chorou.


E há uma revelação profundamente humana nesse detalhe: o Deus que, segundo a fé cristã, conhece o fim desde o princípio não despreza as lágrimas de quem ainda está preso ao meio da história.


Cristo não precisou negar a dor para anunciar a ressurreição.


Não precisou diminuir o luto para demonstrar a esperança.


Diante da morte, o amor divino não se apresentou como uma teoria impecável, mas como uma presença capaz de chorar com os que choram.


Talvez precisemos reaprender essa verdade: a fé não é a obrigação de sofrer sem reclamar.


A esperança não é uma mordaça colocada sobre a saudade.


E a confiança em Deus não exige que chamemos de leve aquilo que nos esmaga.


Há lágrimas que também são orações.


Há revoltas que escondem um amor imenso.


Há momentos em que a única maneira de continuar acreditando é permitir que Deus nos encontre exatamente onde a nossa crença parece insuficiente.


E, se Ele é verdadeiramente Pai, talvez não se escandalize com a nossa "baderna" .


Talvez compreenda que, por trás de cada pergunta desesperada, exista um filho tentando entender por que o amor, que nos ensina a desejar a eternidade, precisa atravessar a experiência tão brutal da despedida.


Ainda assim, existe uma contradição bonita e dolorosa em tudo isso: queremos o céu, mas queremos chegar lá apenas para buscar quem partiu; queremos a eternidade, mas, muitas vezes, não pensamos em construir nada que a anuncie aqui na terra.


Queremos reencontros sem travessias, respostas sem amadurecimento, consolo sem transformação.


Queremos que Deus antecipe o amanhã porque o hoje se tornou insuportável.


Queremos habitar o destino antes de compreender o caminho.


E talvez seja justamente aí que a saudade, além de ferida, se torne também uma convocação.


Porque, se não podemos antecipar o tempo de Deus, podemos aprender a santificar o tempo que ainda nos pertence.


Podemos transformar a ausência em presença oferecida aos vivos.


Podemos continuar uma gentileza que alguém nos ensinou, repetir uma oração que ouvimos de quem partiu, cuidar de alguém com a mesma delicadeza com que um dia fomos cuidados.


Podemos fazer da memória não um túmulo onde aprisionamos o passado, mas uma semente que devolve ao presente alguma coisa do amor que julgávamos perdido.


Não se trata de substituir quem morreu.


Ninguém substitui ninguém.


O amor não funciona como uma cadeira vazia que outra pessoa pode simplesmente ocupar.


Cada vínculo possui uma linguagem própria, uma história irrepetível, um lugar que não se reproduz.


Trata-se de compreender que o amor, quando é verdadeiro, não termina necessariamente onde a presença física termina.


Ele muda de morada dentro de nós.


Deixa de ser encontro de mãos e passa a ser encontro de memória; deixa de ser conversa cotidiana e passa a ser voz interior; deixa de caminhar ao nosso lado e passa a participar, silenciosamente, daquilo que escolhemos nos tornar.


É uma permanência diferente, imperfeita e insuficiente para calar a saudade, mas ainda assim capaz de nos ensinar a continuar.


E talvez construir o céu comece exatamente aí.


Não porque nossas boas obras possam comprar a eternidade, nem porque tenhamos o poder de determinar os mistérios da salvação, mas porque a esperança cristã nos convida a antecipar, na história, os sinais do Reino que aguardamos.


Cada gesto de misericórdia, cada reconciliação sincera, cada mão estendida a quem sofre, cada injustiça enfrentada e cada vida tratada com dignidade tornam o mundo um pouco menos estranho ao amor que esperamos encontrar plenamente em Deus.


Talvez não possamos fazer baderna no céu, mas podemos nos recusar a fazer do mundo um lugar ainda mais doloroso, sobretudo para quem já está sofrendo.


Talvez não possamos arrombar as portas da eternidade, mas podemos abrir as portas da nossa casa, do nosso coração e da nossa indiferença.


Talvez não possamos exigir que Deus antecipe os reencontros, mas podemos impedir que a pressa, o orgulho e a vaidade nos roubem os encontros que ainda são possíveis.


Porque existe uma tragédia silenciosa em passar a vida inteira desejando reencontrar no céu aqueles a quem não tivemos tempo, coragem ou disposição de amar suficientemente bem enquanto estavam aqui.


E, se a partida dos que amamos nos ensina alguma coisa, talvez seja precisamente isto: a vida é breve demais para adiarmos indefinidamente o amor e preciosa demais para desperdiçarmos a presença daqueles que ainda podemos abraçar.


Não sabemos quando chegará a nossa vez de partir.


Não conhecemos os caminhos pelos quais Deus conduzirá a história até o seu desfecho.


Não temos acesso a todas as respostas que a morte arranca de nossas mãos.


A fé não nos concede o controle sobre a eternidade; concede-nos, antes, uma maneira de atravessar o tempo sem entregar a alma ao desespero.


E, no centro dessa esperança, permanece a promessa cristã da ressurreição: não a negação da morte, mas a confiança de que ela não terá a palavra definitiva sobre aqueles que pertencem a Deus.


Talvez o céu seja, para nós, muito mais do que um lugar para onde desejamos ir.


Talvez seja também a promessa de que o amor não foi criado para terminar em um cemitério, de que a história humana não se encerra necessariamente na última respiração e de que as despedidas, por mais definitivas que pareçam aos nossos olhos, não são maiores do que a fidelidade d'Aquele em quem depositamos a esperança.


Até lá, porém, teremos que aprender a viver com as mãos vazias de algumas presenças e o coração cheio de tudo o que elas nos deixaram.


Teremos de aceitar que a saudade não obedece ao calendário, que a fé nem sempre impede o choro e que existem dias em que continuar vivendo é, por si só, um ato de coragem.


E, quando a falta apertar a garganta, quando o nome de alguém nos atravessar como uma oração involuntária, quando olharmos para o céu com a sensação de que Deus está perto demais para ser ignorado e longe demais para ser compreendido, talvez possamos apenas dizer:


"Senhor, hoje eu não quero entender a eternidade. Hoje eu só queria mais alguns minutos."


Alguns minutos para ouvir aquela voz.


Para dizer o que ficou preso na garganta.


Para agradecer o que a rotina nos fez tratar como garantido.


Para abraçar demoradamente quem, agora, só conseguimos abraçar por dentro.


E talvez Deus, que conhece a fragilidade da nossa condição, compreenda que essa pequena súplica não é falta de fé, mas a confissão mais honesta de um amor que ainda não sabe o que fazer com a ausência.


No fim, talvez a nossa vontade de fazer baderna no céu seja apenas a saudade tentando negociar com a eternidade.


Mas, enquanto o céu não se abre e os reencontros permanecem guardados no mistério de Deus, que não nos falte coragem para fazer do tempo presente uma morada de amor.


Que não esperemos perder para reconhecer o valor de uma presença.


Que não precisemos de um túmulo para aprender a dizer "eu te amo".


Que não transformemos a esperança do céu em desculpa para abandonar a construção de um mundo mais humano.


E que, quando finalmente compreendermos aquilo que hoje apenas esperamos, possamos olhar para trás e perceber que, mesmo sem antecipar o tempo de Deus, fizemos da nossa passagem pela terra um testemunho do amor que desejávamos encontrar na eternidade.


Porque talvez a questão nunca tenha sido apenas chegar ao céu.


Talvez a questão seja aprender a viver de tal maneira que, quando a saudade nos fizer olhar para cima, não encontremos somente o lugar onde imaginamos que os nossos amados estejam, mas também a memória de tudo aquilo que o amor nos ensinou a construir enquanto ainda caminhamos por aqui.


Afinal, se a partida dos que amamos nos faz desejar tanto o céu, talvez seja porque o amor, desde sempre, carregue dentro de si uma saudade de eternidade.