O verão não reconhece os vencidos... Northon Salomão de Oliveira
O verão não reconhece os vencidos
Bebelle, há guerras que terminam muito antes de o último inimigo desaparecer. A nossa talvez tenha terminado no instante em que o futuro abriu suas portas e um de nós reconheceu nelas uma promessa, enquanto o outro enxergou uma ameaça.
Nunca soube se você temia o reino ou aquilo que se tornaria ao governá-lo. Há renúncias que se disfarçam de liberdade, assim como certas fugas preservam, sob a aparência da prudência, o segredo de uma derrota que jamais será confessada.
O trono permaneceu vazio por algum tempo. Depois, deixou de esperar.
As estações cumpriram seu ofício, os aliados aprenderam o silêncio e os antigos juramentos perderam a capacidade de convocar os mortos. De tudo o que fomos, restou uma fronteira sem nome, atravessada apenas pela memória de duas pessoas que talvez tenham vencido guerras diferentes e, por isso mesmo, perdido a única que importava.
Não a procurei entre os escombros. Existem ausências que precisam conservar sua própria arquitetura. E existem perguntas cuja resposta destruiria a última beleza daquilo que já não pode ser recuperado.
Você poderia ter sido a rainha de um mundo que nunca chegou a existir. Eu poderia ter sido o homem que você não precisaria temer. Mas o futuro, esse território que jamais pertenceu a ninguém, exigia de nós uma coragem que talvez só um dos dois estivesse disposto a confundir com destino.
Agora, dizem que o verão passou.
Como se as estações soubessem alguma coisa sobre os nossos abismos. Como se o calendário pudesse explicar por que certas pessoas abandonam o eterno quando ele finalmente adquire uma forma humana.
Não há mais guerra, Bebelle. Ou talvez tenhamos alcançado aquela forma superior de combate em que ninguém dispara, ninguém sangra diante das testemunhas e cada sobrevivente precisa fingir que escolheu exatamente o lugar onde terminou.
O reino continua. O tempo também.
E eu jamais saberei se você foi a mulher que não pôde permanecer ou a única que, permanecendo, teria mudado tudo.
