Saudade dos bons e velhos tempos em... Alessandro Teodoro

Saudade dos bons e velhos tempos em que quase todos queriam — e se atreviam a — ser diferentes uns dos outros.
Houve um tempo em que ser diferente não era uma estratégia para chamar a atenção, mas uma maneira espontânea de existir.
As pessoas carregavam suas excentricidades como quem carrega impressões digitais: únicas, intransferíveis, impossíveis de reproduzir por inteiro.
Havia quem desafiasse a moda, quem contrariasse os costumes, quem cultivasse ideias impopulares e quem simplesmente escolhesse caminhar na contramão, sem precisar transformar a própria existência em espetáculo.
Ser diferente era, antes de tudo, um exercício de liberdade.
Hoje, porém, parece que trocamos a inquietação de sermos nós mesmos pelo conforto de parecermos uns com os outros.
Vestimos as mesmas tendências, repetimos as mesmas opiniões, perseguimos os mesmos ideais e, muitas vezes, até fingimos sentir as mesmas emoções.
Nunca tivemos tantas possibilidades de expressão e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos sido tão tentados a esconder aquilo que verdadeiramente nos distingue.
A originalidade, que antes brotava da personalidade, parece agora depender da aprovação alheia.
Queremos ser únicos, desde que alguém confirme nossa unicidade.
Desejamos romper padrões, contanto que a ruptura esteja na moda.
Sonhamos com a liberdade, mas consultamos a multidão antes de dar o primeiro passo.
Eis uma das contradições mais curiosas do nosso tempo: nunca foi tão fácil mostrar quem somos, nem tão difícil escapar da tentação de mostrar aquilo que os outros esperam que sejamos.
As vitrines se multiplicaram, as vozes se tornaram infinitas e os palcos passaram a caber na palma da mão.
Todos podem falar, poucos parecem dispostos a pensar por conta própria; todos podem aparecer, mas nem todos se permitem simplesmente ser.
Há uma diferença imensa entre ter personalidade e construir um personagem, entre possuir convicções e colecionar opiniões emprestadas, entre pertencer a um grupo e entregar a ele as chaves da própria consciência.
Talvez o problema nunca tenha sido a semelhança em si.
Afinal, compartilhamos sonhos, medos, afetos e necessidades que nos aproximam enquanto seres humanos.
O problema começa quando a semelhança deixa de ser uma afinidade espontânea e se transforma numa exigência silenciosa.
Quando o medo de não pertencer se torna maior do que a vontade de ser autêntico.
Quando sacrificamos nossas particularidades no altar de uma aceitação que, por exigir tanto, acaba nos aceitando apenas pela metade.
Porque há uma solidão peculiar em ser igual a todo mundo: a de passar a vida inteira tentando ser reconhecido sem jamais permitir que alguém nos conheça de verdade.
Os antigos talvez não fossem mais livres, nem necessariamente mais autênticos.
Também carregavam preconceitos, convenções e receios.
Mas havia, em certos modos de viver, uma espontaneidade que hoje nos parece quase revolucionária: a liberdade de gostar do que ninguém gostava, de defender uma ideia sem transformá-la em bandeira de um grupo.
De vestir algo fora de época, de cultivar hábitos incompreendidos e de sustentar uma personalidade que não precisava de atualizações constantes para continuar sendo legítima.
Havia quem fosse estranho sem pedir desculpas.
Quem fosse extravagante sem precisar de plateia.
Quem pensasse diferente sem transformar toda discordância numa guerra.
E havia, sobretudo, a possibilidade de conviver com as diferenças sem essa necessidade quase infantil de converter o outro à nossa própria maneira de enxergar o mundo.
Que saudade dessa coragem despretensiosa!
Não necessariamente do passado, mas daquilo que nele existia de mais humano: a possibilidade de sermos imperfeitos, contraditórios, singulares e, ainda assim, dignos de afeto e respeito.
Talvez estejamos confundindo evolução com uniformidade.
Talvez tenhamos avançado tanto na capacidade de nos conectar que começamos a desaprender a arte de nos distinguir.
Afinal, conexão não é comunhão de consciências, assim como proximidade não significa intimidade.
Podemos estar ligados a milhares de pessoas e, ainda assim, distantes de nós mesmos.
E o mais inquietante é que ninguém precisa nos obrigar a abandonar nossa singularidade.
Fazemos isso voluntariamente, pouco a pouco, cada vez que silenciamos uma opinião para evitar desaprovação, escondemos uma preferência para não parecermos esquisitos ou abandonamos um sonho porque ele não combina com as expectativas alheias.
A uniformidade mais perigosa não é aquela imposta pela força, mas a que se instala tão suavemente que passamos a confundi-la com escolha.
Por isso, talvez ser diferente hoje exija mais coragem do que nunca.
Não a coragem barulhenta de quem precisa provar alguma coisa ao mundo, mas a coragem silenciosa de quem não negocia a própria essência por migalhas de reconhecimento.
A coragem de pensar antes de repetir, de questionar antes de concordar, de mudar de ideia quando necessário e de permanecer fiel a si mesmo quando mudar significaria apenas agradar à maioria.
Ser diferente não é discordar de tudo, assim como ser autêntico não é transformar cada particularidade numa virtude.
É ter a liberdade de concordar sem imitar, de discordar sem odiar e de existir sem pedir licença à opinião pública.
É compreender que a verdadeira originalidade não consiste em ser diferente dos outros a qualquer preço, mas em não se tornar uma cópia de ninguém por medo de não ser amado.
No fundo, talvez a saudade não seja só dos bons e velhos tempos.
Talvez seja de uma certa humanidade que parecia compreender, ainda que imperfeitamente, que a beleza da convivência não está em sermos todos iguais, mas em termos algo genuinamente nosso para compartilhar.
Porque uma sociedade na qual todos pretendem pensar da mesma maneira pode até parecer harmoniosa, mas corre o risco de perder a capacidade de pensar.
Um mundo em que todos desejam as mesmas coisas pode até produzir multidões satisfeitas, mas dificilmente compreenderá aqueles que sonham com o que ainda não existe.
Afinal, são as diferenças que ampliam os horizontes, as perguntas que desarrumam as certezas e as individualidades que impedem a humanidade de se transformar numa imensa sala de espelhos, onde cada um contempla a própria imagem multiplicada e acredita estar diante de um mundo inteiro.
Que nunca nos falte, portanto, a coragem de sermos quem somos, mesmo quando isso nos custar o privilégio de sermos iguais.
Que possamos recuperar a liberdade de não caber em todas as caixas, de não seguir todas as tendências, de não repetir todos os discursos e de não transformar a aprovação alheia numa medida do nosso valor.
Que voltemos a cultivar o prazer de surpreender, a elegância de discordar, a humildade de reconhecer nossos erros e a ousadia de sustentar nossas singularidades.
E que, no meio de tanta gente tentando desesperadamente se parecer com alguém, ainda existam aqueles que tenham a serenidade de não se parecer com ninguém além de si mesmos.
Porque o mundo não precisa de mais cópias bem-acabadas.
Precisa de pessoas inteiras.
E talvez a forma mais bonita de rebeldia, nos dias de hoje, seja esta: ter a coragem de continuar sendo original num mundo que transformou a imitação em pertencimento e a aprovação em identidade.
