⁠Não bastasse o Corporativismo nas... Alessandro Teodoro

⁠Não bastasse o Corporativismo nas instituições, ainda tem a Passação de Pano dos civis apaixonados. Há algo profundamente inquietante numa sociedade em que a l... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Não bastasse o Corporativismo nas instituições, ainda tem a Passação de Pano dos civis apaixonados.


Há algo profundamente inquietante numa sociedade em que a lealdade se sobrepõe à consciência…


Em que a defesa de um grupo se torna mais importante do que a busca pela verdade e em que o erro, dependendo de quem o comete, deixa de ser erro para se transformar em algo justificável.


Parece que, para muitos, a moral não é um princípio, mas um instrumento seletivo: rigorosa com os adversários, complacente com os aliados.


O Corporativismo Institucional já é, por si só, uma perigosa distorção ética.


Quando aqueles que deveriam fiscalizar, corrigir e responsabilizar passam a proteger uns aos outros, a instituição deixa de servir ao propósito que a legitima e começa a servir à própria preservação.


Mas o problema se agrava quando essa blindagem encontra, do lado de fora, uma legião de defensores voluntários, dispostos a relativizar qualquer absurdo para preservar a imagem daqueles por quem nutrem admiração, conveniência ou paixão ideológica.


É nesse momento que a crítica deixa de ser compreendida como um exercício de cidadania e passa a ser tratada como uma declaração de guerra.


Questionar torna-se ofender.


Exigir coerência torna-se perseguição.


Apontar contradições torna-se agir de má-fé.


E, assim, em vez de se discutir a legitimidade dos fatos, discute-se a suposta intenção de quem teve a coragem de expô-los.


O mais curioso — e também o mais trágico — é que muitos daqueles que se consideram defensores da justiça acabam se tornando cúmplices daquilo que condenariam com bastante veemência se fosse praticado pelo lado oposto.


Não percebem, ou não querem perceber, que, ao proteger alguém de toda crítica, não estão defendendo a justiça, mas concedendo privilégios morais a quem jamais deveria estar acima dela.


A paixão, quando desprovida de autocrítica, transforma-se numa espécie de cegueira consentida.


O indivíduo já não enxerga o que acontece; enxerga apenas aquilo que precisa enxergar para continuar retroalimentando seu viés.


Os fatos tornam-se inconvenientes, as evidências tornam-se suspeitas e as contradições são cuidadosamente acomodadas no confortável travesseiro das justificativas.


Afinal, reconhecer o erro de quem admiramos exige algo que nem todos estão dispostos a oferecer: a coragem de rever até a si mesmos.


Porque, muitas vezes, não defendemos determinada pessoa por aquilo que ela faz, mas pelo que representa para a nossa identidade.


Admitir que ela errou significa, para alguns, admitir que também se enganaram.


E há quem prefira sacrificar a própria lucidez a experimentar o desconforto de uma desilusão.


Eis a armadilha: quando a lealdade exige o abandono da consciência, já não estamos diante de fidelidade, mas de submissão.


Quando a admiração exige silêncio diante do absurdo, já não estamos diante de respeito, mas de idolatria.


E quando a defesa de alguém depende da desqualificação de toda crítica, talvez o problema não esteja apenas naquele que é defendido, mas também naquele que se recusa a enxergar.


Uma sociedade verdadeiramente madura não é aquela em que todos concordam, tampouco aquela em que as pessoas deixam de admirar instituições, lideranças ou figuras públicas.


É aquela em que ninguém precisa abdicar da própria consciência para demonstrar pertencimento.


É aquela em que a verdade não muda de natureza conforme o crachá, o cargo, a ideologia ou a preferência afetiva de quem a confronta.


No fim das contas, o caráter de uma pessoa não se revela apenas pelas injustiças que denuncia, mas, sobretudo, pelas injustiças que tolera quando cometidas por aqueles de quem gosta.


A verdadeira integridade começa quando somos capazes de condenar no nosso próprio lado aquilo que jamais aceitaríamos no lado oposto.


Porque o maior perigo não está somente em quem pratica o erro, nem em quem o encobre por dever de ofício.


Está também em quem, tendo liberdade para pensar, escolhe não fazê-lo; em quem, podendo questionar, prefere aplaudir; em quem, diante da evidência, fecha os olhos e ainda se orgulha da própria cegueira.


Afinal, instituições podem se proteger por interesses, pessoas podem se calar por conveniência e multidões podem se mobilizar por paixão.


Mas nada disso transforma o injusto em justo, o absurdo em razoável ou a mentira em verdade.


A realidade não tem a menor obrigação de corresponder às nossas paixões.


É a nossa consciência que tem a obrigação de não se ajoelhar diante delas.