DAVID AUSUBEL EXPLICOU A APRENDIZAGEM... Carloseduardobalcarse

DAVID AUSUBEL EXPLICOU A APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA. PAULO VIRILIO INVESTIGOU A ACELERAÇÃO. THOMAS KUHN QUESTIONOU A ESTABILIDADE DOS PARADIGMAS. MAS COMO SABER QUANDO AQUILO QUE APRENDEMOS DEIXOU DE MERECER NOSSA CONFIANÇA?

A humanidade desenvolveu métodos extraordinários para produzir, transmitir e armazenar conhecimentos. Entretanto, continua enfrentando uma dificuldade decisiva: reconhecer quando uma informação aprendida, uma convicção consolidada ou uma interpretação aparentemente coerente precisa ser revista.

Aprender não é garantia de compreender.
Compreender não significa estar correto. E possuir conhecimento não assegura discernimento.

David Ausubel investigou a aprendizagem significativa, destacando a importância dos conhecimentos prévios na assimilação de novas informações. Sua contribuição evidencia que aquilo que já sabemos influencia profundamente aquilo que conseguimos aprender.

Thomas Kuhn examinou as transformações históricas da ciência e o papel dos paradigmas na organização das práticas científicas. Sua obra demonstra como referenciais consolidados podem orientar a investigação e também enfrentar crises diante de problemas persistentes.

Gaston Bachelard desenvolveu o conceito de obstáculos epistemológicos, mostrando como conhecimentos anteriores e hábitos intelectuais podem dificultar a construção de novas compreensões científicas.

Paulo Virilio investigou as consequências da velocidade tecnológica sobre a experiência humana, a percepção e a organização social. Sua reflexão torna-se particularmente relevante em uma sociedade que frequentemente confunde rapidez de acesso com profundidade de compreensão.

Seymour Papert estudou as relações entre aprendizagem, construção do conhecimento e tecnologias digitais, defendendo experiências nas quais o sujeito participa ativamente da elaboração de soluções.

David Kolb sistematizou a aprendizagem experiencial, examinando como experiência, reflexão, conceituação e experimentação participam do processo de aprender.

Jack Mezirow desenvolveu a teoria da aprendizagem transformadora, investigando como a reflexão crítica sobre pressupostos pode modificar perspectivas de significado anteriormente aceitas.

Essas contribuições pertencem a diferentes tradições, mas permitem formular uma questão essencial:

Se nossos conhecimentos anteriores orientam aquilo que aprendemos, como reconhecer quando eles também estão impedindo que compreendamos algo novo?

É nesse problema que situo minhas seis pesquisas científicas.

No METADISCERN, investigo o discernimento como operação de segunda ordem, voltada à avaliação dos critérios pelos quais pensamentos, interpretações e conhecimentos recebem autoridade funcional.

Na Pedagogia do Discernimento, examino a necessidade de desenvolver uma educação que forme sujeitos capazes de justificar, questionar e revisar aquilo que aprendem, ultrapassando a simples memorização de respostas.

Na Alfabetização do Discernimento Consciente (EADC), proponho uma formação orientada à avaliação de evidências, ao reconhecimento de desinformação e à identificação de critérios que sustentam a aceitação de informações.

Na pesquisa sobre evocação e desautorização, examino uma questão específica: recuperar uma informação da memória não significa que ela permaneça válida ou deva continuar orientando novas conclusões.

No estudo sobre discernimento na regulação da relação entre emoção e ação, investigo como experiências emocionais podem influenciar interpretações e decisões sem que sua intensidade constitua prova de validade.

No Método PROTAGONISTA, desenvolvo uma proposta centrada na consciência, na responsabilidade pelas escolhas e na autoria da própria trajetória.

Não afirmo que a revisão de conhecimentos, a reflexão crítica ou a transformação de perspectivas sejam problemas inéditos. Ausubel, Bachelard, Kuhn e Mezirow, entre outros, oferecem contribuições fundamentais para compreendê-los.

A especificidade de minha investigação está em articular o reconhecimento de um conteúdo aprendido, a avaliação dos critérios que sustentam sua autoridade e a possibilidade de calibrar ou retirar essa autoridade quando suas justificativas se mostram insuficientes.

Ausubel nos ajuda a compreender a importância do conhecimento prévio. Bachelard evidencia obstáculos ao conhecimento. Kuhn problematiza a estabilidade dos paradigmas. Mezirow investiga a transformação de perspectivas.

Minha pergunta complementar é: quando um conhecimento anteriormente aceito volta à consciência, o que justifica permitir que ele continue sendo tratado como verdadeiro?

Essa questão não se limita à educação formal.

Uma pessoa pode repetir uma notícia falsa porque já a ouviu inúmeras vezes. Pode defender uma opinião ultrapassada porque aprendeu a considerá-la indiscutível. Pode tomar decisões equivocadas porque confunde familiaridade com confiabilidade.

Na inteligência artificial, o problema assume outra dimensão: sistemas podem recuperar e organizar informações com velocidade extraordinária, mas a disponibilidade de uma resposta não comprova sua validade, nem a compreensão de quem a utiliza.

“O senso comum comumente mente.”

A aprendizagem não se completa quando conseguimos recordar uma resposta. Ela precisa permanecer aberta à possibilidade de reconhecer que aquela resposta já não merece nossa confiança.

“A mente mente e o discernimento desmente.”

Porque o conhecimento que não admite revisão corre o risco de transformar a memória em depósito de certezas e a educação em mecanismo de reprodução do erro.

Carlos Eduardo Garcia Moreno Balcarse

Carlos Eduardo Balcarse

Psicanalista, Escritor e Pesquisador

19 de outubro de 2026