Valeu o 9 Sempre escrevi assim... Desde... Edineurai SaMarSi

Valeu o 9


Sempre escrevi assim...


Desde a infância e a adolescência, nunca consegui me encaixar, permanecer no morno, no raso...


Um dia, chegou uma professora de contrato temporário e preencheu um espaço que eu nem conseguia entender que existia.


Eu nunca conseguia tirar 10 nas redações.


Ela começou a falar sobre a situação dos professores e sobre como eles se sentiam quando eram questionados pelos adolescentes a respeito do sistema. Disse que era como se levassem uma bofetada, porque sabiam que não eram valorizados como deveriam.


Deu a entender que deveríamos falar sobre assuntos “neutros”...


Ela se foi.


A professora regente voltou.


Então, fiz uma redação sobre um conto em uma floresta, cheio de fadas, magia e uma aventura épica.


E, finalmente, consegui o meu primeiro 10.


Naquele momento, eu entendi.


Agora eu sabia o que fazer.


Sabia como escrever para conseguir a nota que esperavam de mim.


E poderia usar aquilo quando precisasse.


Mas aquilo não seria eu.


Eu sabia que escrevia sem erros. O problema nunca foi esse.


O problema era o que eu escrevia.


Então, preferia continuar com os meus 9 a me calar.


Preferia perder um ponto a me vender por um 10.


Talvez eu não tenha vindo ao mundo para ser enfeite.


Talvez eu tenha vindo para ser vista.


Para ser ouvida.


Mesmo que, para isso, algumas vezes eu precisasse perder, enfrentar, questionar e até brigar com a própria família pelos meus direitos e pelos meus ideais.


Porque, se eu tivesse vindo para ser apenas um quadro na parede, estaria estagnada.


Talvez em um casamento ou em uma gravidez aos 14 anos, sem estudo, sem um trabalho decente...


Apenas seguindo o padrão familiar que atravessou séculos e séculos.


Mas eu nunca consegui viver assim.


Nunca consegui aceitar que existir fosse apenas repetir.


E talvez seja por isso que, desde muito cedo, eu tenha preferido o desconforto da verdade ao conforto de uma aprovação.


Se pelo menos uma pessoa me ouvir...


Se pelo menos uma pessoa parar para pensar...


Se alguma palavra minha encontrar alguém no momento certo...


Então valeu o 9.


Porque, no fim das contas, talvez algumas notas sejam apenas números.


E algumas escolhas...


são quem somos.