Uma segunda possibilidade de... MARIA MELLO
Uma segunda possibilidade de interpretação de “RITUAL”, de Ricardo Kbção, situa-se no campo da alienação existencial. Nessa leitura, o ritual representa a repetição de uma experiência cotidiana que parece ter perdido sua capacidade de produzir sentido. O sujeito permanece preso a uma sequência de ações, sensações ou circunstâncias que se renovam sem conduzi-lo a uma transformação efetiva.
A alienação existencial pode ser compreendida como a experiência de distanciamento em relação à própria vida. O indivíduo continua existindo e agindo, mas já não encontra necessariamente nessas ações uma finalidade capaz de justificar sua permanência no mesmo estado. A repetição deixa de oferecer estabilidade e passa a evidenciar a ausência de mudança.
O título permite pensar justamente nessa circularidade. Um ritual pode oferecer ordem e previsibilidade, mas, quando associado a uma existência percebida como sufocante, também pode simbolizar a prisão em uma rotina da qual não se consegue escapar. A repetição passa a ser simultaneamente familiar e opressora: o sujeito conhece o ciclo, mas esse conhecimento não lhe garante uma saída.
Nessa perspectiva, o conflito não depende obrigatoriamente de uma substância ou de um comportamento compulsivo. O aprisionamento pode decorrer da sensação de que a vida se tornou uma sucessão de experiências que não modificam a condição fundamental do indivíduo. A consciência dessa repetição pode intensificar o sofrimento, pois revela a distância entre continuar vivendo e encontrar razões para transformar a própria existência.
A composição pode, assim, ser interpretada como uma representação do sujeito diante de uma realidade que se reproduz sem oferecer uma perspectiva clara de superação. O ritual simbolizaria não apenas a continuidade, mas a dificuldade de atribuir sentido ao que continua. Essa leitura destaca a dimensão existencial da obra, compreendendo a repetição como expressão de uma vida que parece girar em torno de si mesma.
