A DEMOCRACIA NÃO MORRE APENAS QUANDO UM... RivaAlmeida
A DEMOCRACIA NÃO MORRE APENAS QUANDO UM DITADOR TOMA O PODER. MORRE TAMBÉM QUANDO AS PESSOAS ACEITAM QUE ELE NÃO POSSA MAIS SER QUESTIONADO.
Eu aceito perder uma eleição. Aceito ser governado por alguém que considero despreparado, conviver com decisões que me revoltam e assistir a milhões de brasileiros comemorarem aquilo que considero um erro. Isso faz parte da democracia. A liberdade não me garante a vitória; garante que eu possa continuar lutando por ela.
O que não aceito é perder, junto com uma eleição, o direito de disputar a próxima.
Posso considerar meu candidato ruim e, ainda assim, escolhê-lo por entender que a alternativa representa um risco maior. Não preciso esconder seus defeitos, inventar virtudes ou transformar suas falhas em qualidades para justificar meu voto. A política não exige paixão cega. Exige discernimento.
Incompetência, demagogia, corrupção e irresponsabilidade são defeitos graves, que precisam ser denunciados, investigados e punidos. Mas existe algo ainda mais perigoso: o governante que não aceita limites, despreza as instituições e considera a derrota uma afronta pessoal. Porque um político ruim pode ser substituído. Um sistema que impede sua substituição ameaça a própria liberdade.
Quem aceita governar uma democracia precisa aceitar também a possibilidade de perder o poder. Não importa se acredita ser escolhido por Deus, se multidões o aplaudem ou se considera seus adversários indignos de governar. Nenhuma convicção pessoal, nenhuma popularidade e nenhum culto à personalidade estão acima das regras democráticas.
O presidente não é dono do Brasil. Recebe as chaves de uma casa que pertence ao povo, por um tempo determinado. Quando o mandato termina, deve devolvê-las. Não pode confundir o cargo com propriedade, a vitória com superioridade moral ou o voto com uma autorização para fazer tudo o que deseja.
E há algo que precisa ser dito com toda a clareza: a maioria tem o direito de escolher quem governa, mas não tem o direito de decidir quem merece ser livre, respeitado ou reconhecido em sua dignidade.
Não cabe ao Estado impor uma religião, determinar qual família merece ser considerada família, qual amor é digno de respeito ou negar a alguém o direito de existir com sua própria identidade. Um presidente pode entregar sua vida a Nosso Senhor Jesus Cristo, se essa for sua fé. Mas não pode entregar o Brasil em nome de uma escolha que pertence à sua consciência, e não à consciência de milhões de brasileiros.
A fé de um governante merece respeito. A liberdade de todos os cidadãos também.
É justamente por isso que o presidente não pode ser poderoso a ponto de fazer tudo o que quer. O Congresso, a Justiça, a imprensa livre e a oposição existem para estabelecer limites, fiscalizar, investigar e dizer NÃO quando o poder ultrapassa suas fronteiras. Essas instituições podem falhar, decepcionar e até envergonhar a sociedade. Precisam ser cobradas, corrigidas e aperfeiçoadas. Mas destruí-las porque contrariam o governante é abrir as portas para algo muito pior: o poder sem controle.
Não existe democracia verdadeira quando o governante só respeita as instituições que lhe obedecem.
E, quanto ao candidato em quem votei, não lhe devo submissão. Se vencer, continuarei observando, questionando e denunciando seus erros. Não vou passar quatro anos fazendo malabarismos para defender o indefensável, inventando desculpas para justificar o injustificável ou atacando quem ousar criticar aquele em quem depositei meu voto.
Afinal, que espécie de consciência é essa que reconhece os erros do adversário, mas se torna cega diante dos erros do próprio lado?
É vergonhoso transformar políticos em ídolos e eleitores em soldados de uma guerra na qual os poderosos disputam o comando, enquanto a população briga entre si. O voto não é um contrato de fidelidade. Não é uma declaração de amor. Não é uma procuração em branco.
O político trabalha para o povo. O povo não existe para servir ao político.
Quem vota não se torna devedor de quem foi eleito. É o eleito que assume a obrigação de prestar contas a quem lhe confiou o mandato.
Não tenho compromisso com a vaidade de um governante, com a conveniência de um partido ou com a necessidade de defender uma escolha passada. Tenho compromisso com a verdade, com a liberdade e com o direito de mudar de opinião quando os fatos exigirem.
Porque meu voto pode ter prazo. Minha consciência, não.
Posso perder uma eleição sem perder a dignidade. Posso aceitar uma derrota sem aplaudir aquilo em que não acredito. Posso reconhecer a vitória de quem rejeito sem abrir mão do direito de combatê-lo politicamente.
O que jamais devo aceitar é que alguém transforme a própria vitória em licença para impedir a minha próxima tentativa.
A democracia não exige que eu vença. Exige que eu possa perder sem me tornar prisioneiro de quem venceu.
E, se um dia eu tiver de escolher entre defender o político em quem votei e defender o direito de tirá-lo do poder, não terei dúvidas: ficarei com a democracia.
Porque políticos passam, governos terminam e partidos desaparecem. Mas, quando um povo entrega sua liberdade em troca da ilusão de que seu líder nunca erra, pode descobrir tarde demais que perdeu muito mais do que uma eleição.
Meu voto elege um governante. Não elege um dono. Minha derrota não me tira a liberdade. E a vitória de ninguém lhe dá o direito de roubá-la.
