Bate-papo com Jesus Senhor, permita-me... Iaponira
Bate-papo com Jesus
Senhor, permita-me ser sincera.
Às vezes, olhando para o que alguns seres humanos fizeram e continuam fazendo em seu nome, chego a pensar que o Senhor deu a vida por nós em vão. Não por causa de Ti, dos teus ensinamentos ou da tua mensagem, mas por causa daquilo que alguns de nós fomos capazes de fazer com tudo isso.
A coisa aqui está feia, Senhor.
Há cristãos e, entre eles, alguns que se apresentam como teus “representantes legais” usando o teu nome de má-fé. Gente que fala em teu nome, ocupa altares e púlpitos, mas parece ter se esquecido justamente daquilo que o Senhor ensinou: amar o próximo, perdoar, acolher, repartir, ajudar os necessitados, ter misericórdia.
E quando alguém tenta viver esses ensinamentos, muitas vezes é julgado, chamado de comunista, maconheiro, vagabundo e tantos outros nomes que fazem a humanidade tremer e, imagino eu, fazem o Senhor se envergonhar do que fizeram com a sua mensagem.
Não estou falando de todos os cristãos. Sei que existem pessoas de fé que continuam tentando viver aquilo que o Senhor ensinou, muitas vezes silenciosamente, sem palco, sem microfone e sem transformar a fé em negócio. São essas pessoas que me fazem acreditar que nem tudo está perdido.
Mas o que fizeram com a sua história, Senhor?
Humildade, misericórdia e humanidade parecem, para alguns, coisas de um passado distante. E alguns dos seus supostos “legítimos representantes” parecem estar fechando as portas das igrejas e dos templos justamente para aqueles que mais precisariam encontrar ali acolhimento, esperança e dignidade.
Às vezes penso que há infiltrados do próprio Satanás falando em teu nome nos altares. Talvez seja uma provocação minha, talvez seja apenas a indignação de quem olha para determinadas atitudes e não consegue encontrar nelas nada que se pareça contigo.
E sabe o que estão fazendo com a fé de muita gente, Senhor?
Monetizando.
Transformando fé em produto, culpa em instrumento de controle e esperança em mercadoria. É a turma da exploração da fé: acende uma vela para Deus e outra para o dinheiro e, quando convém, parece até negociar com o próprio diabo.
Perdoa-me, Senhor, pela sinceridade.
E perdoa-me também pelas vezes em que questiono os cristãos. Não a Ti. Não os teus ensinamentos. Não a possibilidade de uma fé verdadeira. Questiono aquilo que alguns cristãos fizeram e ainda fazem com a tua história, com o teu nome e com aquilo que o Senhor representa.
A igreja que deixaste, Senhor, deveria ser lugar de acolhimento, de misericórdia e de transformação. Mas, em alguns lugares, parece ter se transformado em templo de vaidade, poder e luxúria, cheio de sepulcros caiados: bonitos por fora, mas escondendo por dentro aquilo que ninguém quer enxergar.
Humanos tão desumanos.
Pessoas que pregam uma coisa e vivem outra. Que falam de amor enquanto cultivam ódio. Que pregam perdão enquanto alimentam ressentimento. Que levantam as mãos para o céu e, ao mesmo tempo, fecham as mãos para quem precisa delas.
Senhor, permita-me ainda lhe dar um conselho.
Não volte.
Não agora.
Não para encontrar uma humanidade que, em tantos lugares, parece ter aprendido tão pouco sobre aquilo que o Senhor ensinou.
Tenho medo de que alguns daqueles que mais aguardam a sua volta sejam justamente os que menos suportariam ouvir o que o Senhor teria a dizer.
Tenho medo de que, diante do Senhor, alguns dos que hoje gritam seu nome fossem capazes de negá-lo novamente , não por falta de fé, mas porque talvez não reconhecessem o Senhor quando estivesse diante deles.
E, pior, talvez fossem capazes de fazer coisas ainda mais cruéis em nome da própria fé.
Seriam capazes de negar, perseguir, fuzilar, esquartejar e transformar uma praça pública em espetáculo ,enquanto acreditam estar defendendo Deus.
Que ironia, Senhor.
Talvez o maior problema não seja o mundo ter se afastado de Ti.
Talvez seja a quantidade de pessoas que dizem estar contigo sem jamais terem aprendido a reconhecer aquilo que o Senhor ensinou.
Ainda assim, Senhor, eu agradeço.
Agradeço pela vida que deste por mim.
Agradeço pelo amor que ensinaste.
E, apesar de tudo o que me revolta, ainda prefiro acreditar que a tua mensagem não fracassou.
Talvez nós é que tenhamos falhado tantas vezes em vivê-la.
Perdoa-me pela minha sinceridade.
E obrigada, Senhor, por teres dado a vida por mim.
Iaponira Barros
