O problema não é acreditar em tudo. É... Carloseduardobalcarse

O problema não é acreditar em tudo. É não saber quanto acreditar em cada coisa

Nunca tivemos acesso a tanta informação / desinformação. E talvez nunca tenha sido tão difícil decidir o que fazer com ela.

Uma notícia chega pelo celular. Um vídeo apresenta uma explicação aparentemente convincente. Alguém compartilha uma denúncia. Um especialista afirma determinada coisa. Outro especialista afirma o contrário. Uma imagem parece comprovar um acontecimento. Uma inteligência artificial responde com segurança. Milhares de pessoas repetem a mesma versão.

Em poucos minutos, não estamos apenas diante de informações.

Estamos diante de disputas pela nossa confiança.

É comum imaginar que o grande problema da desinformação seja acreditar no que é falso. Evidentemente, isso faz parte do problema. Fake news, golpes digitais, conteúdos manipulados e informações deliberadamente enganosas dependem, em alguma medida, da capacidade de obter credibilidade.

Mas existe uma dificuldade anterior e mais profunda.

Mesmo quando uma informação é verdadeira, ainda precisamos decidir quanto peso ela merece.

Verdade e relevância não são a mesma coisa

Uma informação pode ser verdadeira e irrelevante para determinada decisão.

Outra pode ser verdadeira, relevante, mas insuficiente.

Uma terceira pode estar parcialmente correta e conduzir a uma conclusão equivocada porque omite elementos essenciais.

Isso significa que verificar se algo é verdadeiro constitui apenas uma parte do problema.

A pergunta seguinte é:

O que essa informação me autoriza a concluir?

Essa distinção parece simples, mas altera profundamente a maneira como pensamos a alfabetização midiática, o pensamento crítico e o combate à desinformação.

Não basta separar verdadeiro de falso.

Precisamos aprender a distinguir evidência de conclusão, informação de decisão e presença de um argumento do peso que concedemos a ele.

O perigo daquilo que confirma o que já pensamos

Há ainda outra dificuldade.

Não recebemos informações como recipientes vazios.

Interpretamos aquilo que encontramos a partir de expectativas, experiências anteriores, emoções, crenças, interesses e referências sociais. Uma informação que confirma aquilo em que já acreditamos tende a encontrar menos resistência do que outra que ameaça nossas convicções.

É por isso que combater fake news apenas oferecendo mais informação pode não ser suficiente.

Às vezes, o problema não está na ausência de dados.

Está na maneira como atribuímos autoridade aos dados que recebemos.

Duas pessoas podem acessar a mesma informação e conceder a ela pesos completamente diferentes. E uma mesma pessoa pode exigir provas rigorosas para aquilo de que discorda e aceitar evidências frágeis quando elas confirmam aquilo em que deseja acreditar.

Pensar criticamente, portanto, também exige aprender a desconfiar da facilidade com que concordamos conosco mesmos.

Nem acreditar, nem desacreditar automaticamente

Existe uma falsa alternativa que frequentemente empobrece esse debate.

De um lado estaria a credulidade: acreditar em tudo.

Do outro estaria a desconfiança: não acreditar em nada.

Nenhuma das duas produz necessariamente autonomia.

Quem acredita automaticamente terceiriza o julgamento para aquilo que recebe.

Quem desacredita automaticamente pode continuar igualmente determinado pelo conteúdo recebido, apenas invertendo o sinal da resposta.

A questão mais importante talvez esteja entre essas duas posições:

quanto de autoridade esta informação merece receber de mim, nesta situação, diante das evidências disponíveis?

Essa pergunta desloca o problema.

Em vez de apenas aceitar ou rejeitar, passamos a calibrar.

Da informação ao discernimento

É nesse ponto que a discussão encontra o eixo das pesquisas que venho desenvolvendo sobre discernimento.

Tenho trabalhado com a possibilidade de compreender o discernimento não apenas como virtude abstrata, prudência ou expressão do chamado bom senso, mas como uma capacidade que possa ser descrita operacionalmente, examinada e submetida à investigação empírica.

Entre os conceitos explorados nesses trabalhos está a calibração discernitiva.

Em termos simples, não se trata apenas de perguntar se determinada pista, informação ou argumento está presente. Trata-se de investigar se o peso concedido a esse elemento é compatível com sua utilidade para o julgamento que está sendo realizado.

Essa diferença é fundamental.

Uma informação não deveria governar uma decisão simplesmente porque apareceu.

Uma afirmação não se torna mais verdadeira porque foi repetida milhares de vezes.

Uma fonte não se torna infalível porque possui autoridade.

Uma emoção não transforma automaticamente uma interpretação em fato.

E aquilo que confirma nossas convicções não recebe, por isso, maior valor probatório.

O desafio está justamente em aprender a ponderar sem simplesmente obedecer.

Educação contra a desinformação

Talvez por isso a educação para o enfrentamento da desinformação precise ultrapassar a orientação tradicional de “verificar a fonte”.

Verificar fontes continua sendo indispensável.

Mas podemos avançar.

O estudante pode aprender a perguntar:

Qual é a evidência?

O que essa evidência efetivamente demonstra?

Que conclusão estou acrescentando por conta própria?

Estou atribuindo peso excessivo a uma informação apenas porque ela confirma aquilo que eu já pensava?

Que informação seria capaz de me fazer mudar de posição?

Estou avaliando a qualidade da evidência ou apenas a intensidade da minha reação diante dela?

Essas perguntas deslocam a educação do conteúdo para a operação cognitiva realizada sobre o conteúdo.

É nessa direção que a Pedagogia do Discernimento, a Alfabetização do Discernimento Consciente e outros constructos que venho investigando procuram abrir uma agenda de pesquisa: não oferecer às pessoas uma lista definitiva daquilo em que devem acreditar, mas investigar maneiras de desenvolver melhores condições para que consigam avaliar quanto peso cada influência merece.

A autonomia começa onde termina o automatismo

Fake news são perigosas.

Deepfakes são perigosos.

Golpes digitais são perigosos.

Algoritmos capazes de selecionar aquilo que vemos também merecem atenção.

Mas existe um elemento comum atravessando todos esses fenômenos: Em algum momento, algo externo encontra um sistema humano que precisa interpretar, avaliar, ponderar e decidir.

É nesse encontro que a autonomia pode ser preservada ou perdida.

Por isso, talvez o enfrentamento da desinformação não dependa somente de produzir informações melhores.

Dependa também de formar pessoas capazes de não transformar automaticamente informação em convicção, convicção em certeza e certeza em ação.

Porque discernir não é simplesmente acreditar menos.

Também não é duvidar de tudo.

Discernir é aprender a decidir quanto peso aquilo que nos influencia merece ter sobre aquilo que decidiremos.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Autor e Pesquisador