⁠Quem liga o som para a vizinhança... Alessandro Teodoro

⁠Quem liga o som para a vizinhança inteira ouvir é só um qualquer um que pode votar em qualquer outro. Parece apenas uma simples frase sobre barulho, mas talvez... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Quem liga o som para a vizinhança inteira ouvir é só um qualquer um que pode votar em qualquer outro.


Parece apenas uma simples frase sobre barulho, mas talvez diga muito mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.


Porque, no fundo, o problema nunca foi apenas o volume da música…


É a ideia de que o meu prazer pode ocupar o espaço do outro sem eu precisar perguntar se ele concorda.


Há quem aumente o volume do som porque pode.


Há quem fale mais alto porque acredita que sua voz merece prevalecer.


Há quem acelere no trânsito porque considera o tempo dos outros menos importante que o seu.


E há quem escolha seus representantes pelo mesmo impulso: não pelo que constroem, mas pelo que gritam.


A Democracia, curiosamente, coloca nas mãos desse mesmo “qualquer um” um poder enorme: o direito de escolher quem falará em nome de muitos.


E talvez seja justamente por isso que pequenas atitudes cotidianas deveriam nos fazer pensar.


Antes de exigir respeito dos que governam, seria razoável perguntar quanto respeito oferecemos a quem divide espaço conosco na rua, no prédio, no bairro e na cidade.


O voto acontece de tempos em tempos.


A convivência acontece todos os dias.


Talvez maturidade cidadã comece quando percebemos que liberdade não é fazer tudo aquilo que podemos fazer.


É compreender que, ao nosso lado, existem outras pessoas com os mesmos direitos, os mesmos incômodos e a mesma dignidade.


No fim, aquele que liga o som para a vizinhança inteira ouvir continua sendo apenas um qualquer um.


Mas é justamente esse qualquer um que, diante da urna, ajuda a decidir os rumos de todos.


E talvez a pergunta mais incômoda não seja em quem ele vai votar.


Seja que tipo de cidadão ele escolhe ser quando ninguém está contando os votos.