COMO DECIDIR EM QUEM CONFIAR SEM... Carloseduardobalcarse

COMO DECIDIR EM QUEM CONFIAR SEM TERCEIRIZAR O PRÓPRIO PENSAMENTO?

Não confiar em ninguém não produz autonomia. Produz isolamento.

Confiar em todos também não produz conhecimento. Produz vulnerabilidade.

Entre a desconfiança absoluta e a submissão intelectual existe um problema muito mais sofisticado: como decidir quanto peso dar ao conhecimento de outra pessoa?

Vivemos cercados por autoridades. Médicos, professores, pesquisadores, jornalistas, líderes, especialistas, influenciadores e, cada vez mais, sistemas de inteligência artificial oferecem respostas sobre assuntos que não dominamos.

Não existe tempo suficiente para verificar pessoalmente tudo aquilo de que dependemos.

Confiar, portanto, é inevitável.

O problema começa quando confundimos confiança com transferência de autoria.

Uma pessoa pode reconhecer que alguém sabe mais sobre determinado assunto sem transformar essa pessoa em proprietária de suas conclusões. Pode aceitar uma orientação especializada e continuar perguntando quais evidências a sustentam, quais são seus limites e em que condições ela deixaria de ser válida.

A pergunta madura não é apenas: “Em quem devo confiar?”

É também: “Por que estou confiando, em quê estou confiando e até onde essa confiança deve alcançar?”

Credenciais importam. Evidências importam. Histórico importa. Consenso especializado importa. Mas nenhum desses elementos possui exatamente a mesma função em todas as situações.

Discernir significa aprender a ponderá-los.

É por isso que tenho trabalhado com a ideia de autoridade epistêmica associada à calibração discernitiva. Não se trata de rejeitar autoridades, mas de impedir que reconhecimento de competência se transforme automaticamente em renúncia ao próprio julgamento.

A autonomia intelectual não exige que saibamos tudo.

Exige que saibamos o que fazer quando não sabemos.

Talvez a forma mais perigosa de terceirização do pensamento não seja pedir ajuda para pensar.

É esquecer que, depois da ajuda, a responsabilidade por aquilo que autorizamos continuar acreditando ainda é nossa.

Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador