QUANDO O CENTRO ESPÍRITA DEIXA DE SER... Marcelo Caetano Monteiro
QUANDO O CENTRO ESPÍRITA DEIXA DE SER CENTRO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.
Um Centro Espírita não é propriedade de quem chegou primeiro, de quem permaneceu mais tempo, de quem ocupa determinado cargo ou de quem se acostumou a decidir tudo em seu interior. Não pertence a uma diretoria, a um médium, a um expositor, a uma família ou a um pequeno grupo que, com o passar dos anos, começa a confundir dedicação com posse.
O Centro Espírita é uma casa de estudo, educação moral, fraternidade, esclarecimento e serviço, organizada para que o Espiritismo seja conhecido, estudado, compreendido e vivido.
É justamente aí que começa uma das questões mais delicadas do movimento espírita: quando aqueles que deveriam servir à instituição passam a comportar-se como seus proprietários.
A obra de José Herculano Pires, O Centro Espírita, permanece especialmente provocadora nesse aspecto. Sua preocupação fundamental não estava apenas com a existência física da instituição, mas com aquilo que ela deveria representar como instrumento de cultura e transformação espiritual. O Centro não deveria ser reduzido a um lugar de hábitos religiosos, formalidades, dependências pessoais ou práticas realizadas sem compreensão.
A advertência de Herculano alcança, portanto, muito mais do que a organização externa.
Alcança a consciência de quem trabalha dentro dela.
O CENTRO NÃO É DE NINGUÉM.
Há uma diferença profunda entre amar uma instituição e sentir-se dono dela.
Quem ama serve.
Quem se sente dono controla.
Quem serve deseja que outros aprendam.
Quem controla teme perder espaço.
Quem serve prepara sucessores.
Quem controla impede a renovação.
Quem compreende o caráter coletivo da tarefa sabe que nenhum trabalhador é indispensável. Quem se deixa dominar pelo personalismo começa, pouco a pouco, a acreditar justamente no contrário.
E então aparecem comportamentos que, embora muitas vezes revestidos de boas intenções, contradizem frontalmente a finalidade espírita: o trabalhador novo não recebe oportunidade; aquele que pensa diferente é afastado; novas ideias são recebidas com desconfiança; determinados cargos tornam-se permanentes; grupos fechados passam a decidir o destino da instituição; e a experiência acumulada, que deveria ser instrumento de orientação, transforma-se em argumento para impedir qualquer renovação.
Não se trata de retirar dos mais experientes o respeito que merecem.
Experiência é patrimônio.
Mas experiência não é propriedade.
O trabalhador antigo deveria ser aquele que abre portas para os que chegam, transmite aquilo que aprendeu e prepara outras pessoas para continuar o serviço.
Quando acontece o contrário, algo precisa ser examinado.
Porque uma casa espírita que não consegue formar novos trabalhadores corre o risco de envelhecer não apenas em seus quadros, mas principalmente em sua mentalidade.
QUANDO A DEDICAÇÃO SE TRANSFORMA EM POSSE.
Existe uma espécie de personalismo particularmente perigosa no ambiente espírita: aquela que não se apresenta como vaidade evidente.
Ela pode aparecer disfarçada de zelo.
“Eu conheço esta casa.”
“Eu estou aqui há muitos anos.”
“Sempre fizemos assim.”
“Essa pessoa ainda não está preparada.”
“Não podemos entregar essa responsabilidade a qualquer um.”
Algumas dessas afirmações podem conter prudência legítima. O problema surge quando se transformam em mecanismos permanentes de exclusão.
Ninguém deve receber uma responsabilidade simplesmente por ser novo.
Mas ninguém deveria ser impedido de crescer simplesmente porque outros desejam conservar indefinidamente o espaço que ocupam.
O Centro Espírita necessita de disciplina, sim.
Necessita de organização.
Necessita de trabalhadores preparados.
Necessita de bom senso.
Mas disciplina não é imobilidade.
Organização não é domínio.
Experiência não é monopólio.
Autoridade não é propriedade.
E antiguidade não constitui superioridade espiritual.
POUCO ESTUDO; MENOR AINDA A CONVICÇÃO.
Talvez uma das maiores fragilidades do movimento espírita esteja justamente na distância entre frequentar o Espiritismo e conhecer o Espiritismo.
Há quem permaneça muitos anos dentro de uma instituição espírita sem jamais realizar um estudo realmente sério da Doutrina.
Conhece costumes.
Conhece horários.
Conhece pessoas.
Conhece funções.
Conhece a rotina da casa.
Mas não conhece suficientemente aquilo que a Doutrina propõe.
E existe uma diferença imensa entre conhecer o funcionamento de uma instituição e compreender o pensamento espírita.
O estudo não deveria ser um adorno da casa espírita.
É uma de suas bases.
Kardec jamais estabeleceu a fé espírita sobre a simples aceitação de pessoas, autoridades ou tradições. A Doutrina exige exame, observação, raciocínio, comparação, reflexão e coerência.
Por isso, quando o estudo desaparece, abre-se espaço para outra coisa ocupar o seu lugar.
O hábito.
A tradição.
O personalismo.
A opinião particular.
A autoridade informal.
O “sempre foi assim”.
E, quando essas coisas passam a valer mais do que o conhecimento doutrinário, o Centro pode continuar funcionando externamente, mas começa a perder sua finalidade interior.
A FALTA DE ESTUDO PRODUZ UMA ESTRANHA CERTEZA.
Há uma contradição que merece ser examinada com coragem.
Quanto menos se estuda, frequentemente maior se torna a segurança com que algumas pessoas defendem suas próprias convicções.
O estudo sério ensina humildade porque revela a extensão daquilo que ainda ignoramos.
A ignorância, quando não reconhecida, pode produzir justamente o contrário: certeza excessiva.
E isso é particularmente perigoso em uma instituição cuja finalidade deveria ser justamente a educação do espírito.
Não basta dizer-se espírita.
Não basta trabalhar durante anos em uma casa espírita.
Não basta conhecer algumas passagens de O Evangelho segundo o Espiritismo.
Não basta participar de reuniões.
É necessário perguntar:
O que realmente aprendemos?
O que modificamos em nós?
Nossa compreensão da Doutrina aumentou ou apenas nosso poder dentro da instituição?
Estamos formando trabalhadores ou formando dependentes?
Estamos ensinando a pensar ou ensinando a obedecer?
Estamos preparando a renovação ou defendendo posições pessoais?
Essas perguntas não deveriam provocar escândalo.
Deveriam provocar reflexão.
O NOVO TRABALHADOR NÃO É UMA AMEAÇA.
Há algo ainda mais grave quando a permanência de determinados trabalhadores começa a depender da exclusão dos novos.
O jovem trabalhador — ou simplesmente aquele que chega depois — não deveria ser visto como ameaça.
Ele é uma possibilidade.
Pode trazer disposição.
Pode trazer novas perguntas.
Pode apresentar talentos que ainda não tiveram oportunidade de florescer.
Pode cometer erros, evidentemente.
Mas os antigos também erraram.
A função dos mais experientes não é impedir que os novos aprendam porque podem falhar.
É ajudá-los a aprender sem transformar o erro em condenação.
Uma casa espírita verdadeiramente educativa deveria possuir mecanismos de acompanhamento, orientação e formação.
O trabalhador novo precisa de preparo.
Mas precisa também de oportunidade.
Se ninguém lhe concede oportunidade porque “ainda não sabe”, como poderá algum dia saber?
É preciso ensinar.
É preciso acompanhar.
É preciso corrigir.
É preciso confiar progressivamente.
É preciso permitir que o trabalhador cresça.
Do contrário, cria-se uma situação absurda: aqueles que controlam a instituição justificam sua permanência dizendo que não existem pessoas preparadas para substituí-los, enquanto simultaneamente impedem que novas pessoas sejam preparadas.
Isso não é renovação.
É perpetuação.
ORGULHO, CIÚME E VAIDADE DENTRO DA CASA ESPÍRITA.
É doloroso admitir, mas o fato de uma instituição possuir o nome “espírita” não significa que todos os sentimentos humanos tenham desaparecido de dentro dela.
O orgulho pode entrar pela porta.
O ciúme pode ocupar uma cadeira.
A vaidade pode assumir uma função.
A disputa por reconhecimento pode vestir-se de zelo doutrinário.
A necessidade de poder pode apresentar-se como preocupação com a disciplina.
É justamente por isso que o Centro Espírita precisa ser lugar de reforma íntima, e não um território onde cada pessoa possa ocultar suas imperfeições atrás da função que desempenha.
O problema não está em exercer uma responsabilidade.
O problema está em transformar a responsabilidade em identidade de poder.
Não é errado coordenar.
É errado acreditar que ninguém mais poderia coordenar.
Não é errado orientar.
É errado não permitir que outros aprendam.
Não é errado preservar aquilo que funciona.
É errado utilizar a tradição como argumento para impedir aquilo que precisa ser renovado.
Não é errado respeitar os trabalhadores antigos.
É errado exigir que o respeito lhes conceda uma espécie de soberania permanente.
PARA QUE, AFINAL, SERVE UM CENTRO ESPÍRITA?
Serve para estudar.
Serve para esclarecer.
Serve para acolher.
Serve para educar.
Serve para estimular a transformação moral.
Serve para aproximar pessoas do conhecimento espírita sem lhes retirar a liberdade de pensar.
Serve para desenvolver trabalhadores conscientes de que o serviço é maior do que o servidor.
Serve para estabelecer um ambiente em que a fraternidade não seja apenas palavra pronunciada em reuniões, mas princípio efetivamente praticado.
Serve para colocar o conhecimento a serviço do aperfeiçoamento humano.
E, justamente por isso, o Centro Espírita não pode ser compreendido como uma espécie de extensão da personalidade de seus dirigentes.
A casa deve servir à Doutrina; a Doutrina não deve servir às conveniências da casa.
Quando acontece a inversão, começa o desvio.
O CENTRO ESPÍRITA PRECISA DE RENOVAÇÃO.
Renovar não significa destruir.
Não significa desprezar os antigos.
Não significa abandonar princípios.
Não significa substituir estudo por novidades.
Renovação significa permitir que a instituição continue viva.
Uma árvore saudável conserva suas raízes, mas produz folhas novas.
Da mesma maneira, o Centro Espírita precisa preservar seus fundamentos doutrinários e, ao mesmo tempo, permitir que novas gerações de trabalhadores encontrem espaço para servir, estudar, aprender e desenvolver suas capacidades.
Quem realmente compreende a continuidade da obra não teme a chegada de novos trabalhadores.
Ao contrário.
Trabalha para que eles cheguem.
Prepara-os.
Orienta-os.
Confia-lhes responsabilidades progressivamente.
E, quando chega o momento de afastar-se de determinada função, não sente que perdeu alguma coisa.
Sente que cumpriu uma etapa.
O VEXAME NÃO ESTÁ EM RECONHECER O ERRO.
Se uma casa espírita percebe que se afastou de sua finalidade, não deveria sentir vergonha de reconhecer isso.
Vergonha maior seria perceber e nada fazer.
É possível que uma instituição, formada por pessoas imperfeitas, incorra em equívocos. Isso faz parte da condição humana.
O verdadeiro problema está em transformar o equívoco em tradição.
Herculano Pires enxergava no Centro Espírita energias capazes de reconstrução. Essa esperança é fundamental.
A crítica ao movimento espírita não precisa nascer de hostilidade ao Espiritismo.
Pode nascer justamente do amor pela Doutrina.
Pode nascer da fidelidade ao propósito de uma casa que deveria ser centro de estudo, fraternidade e esclarecimento.
Por isso, talvez seja necessário dizer com toda a serenidade, mas também com toda a firmeza:
alguns Centros Espíritas precisam menos de discursos sobre humildade e mais de oportunidades concretas para que a humildade seja praticada.
Precisam menos de pessoas defendendo seus lugares e mais de trabalhadores preparando outros trabalhadores.
Precisam menos de certezas pessoais e mais de estudo.
Precisam menos de personalidades indispensáveis e mais de princípios.
Precisam menos de disputas silenciosas e mais de fraternidade.
Precisam menos de medo da renovação e mais de confiança na continuidade do trabalho.
Porque o Centro Espírita não existe para perpetuar homens.
Existe para servir ao ideal espírita.
E quando alguém passa a acreditar que a casa não pode funcionar sem sua presença, talvez seja justamente nesse momento que precise recordar uma das mais elementares lições da Doutrina: ninguém possui a obra; todos somos apenas trabalhadores temporários diante de uma tarefa que nos ultrapassa.
Se isso for verdadeiramente compreendido, o trabalhador antigo não fechará a porta ao novo.
Abrirá.
O dirigente não concentrará tudo em suas mãos.
Ensinará.
O médium não procurará domínio.
Servirá.
O estudioso não utilizará conhecimento para humilhar.
Esclarecerá.
E aquele que um dia deixar determinada função não sairá da casa sentindo que perdeu um território.
Sairá sabendo que ajudou a construir uma obra capaz de continuar sem ele.
E talvez seja essa uma das provas mais silenciosas da verdadeira humildade dentro de um Centro Espírita: conseguir preparar alguém para fazer, amanhã, aquilo que hoje fazemos — e alegrar-nos quando essa pessoa estiver pronta para fazê-lo melhor.
FONTES PARA ESTUDO.
José Herculano Pires — O Centro Espírita.
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos.
Allan Kardec — O Evangelho segundo o Espiritismo.
Allan Kardec — O Livro dos Médiuns.
Allan Kardec — Obras Póstumas.
