⁠Ah, se por um Descuido a justiça... Alessandro Teodoro

⁠Ah, se por um Descuido a justiça brasileira ficasse cega, despretensiosa e desapaixonada! Cega para os nomes, os cargos, as ideologias e os interesses que se e... Frase de Alessandro Teodoro.

⁠Ah, se por um Descuido a justiça brasileira ficasse cega, despretensiosa e desapaixonada!


Cega para os nomes, os cargos, as ideologias e os interesses que se escondem por trás das causas.


Despretensiosa, sem a necessidade de provar força, autoridade ou superioridade.


E desapaixonada, porque a justiça, quando se deixa seduzir pelas paixões, corre o risco de confundir convicção com verdade e vontade com direito.


Talvez, então, voltasse a enxergar aquilo que realmente importa: os fatos.


Porque justiça não deveria precisar de torcida.


Não deveria ter lado, aplauso ou vaia.


Não deveria ser celebrada quando alcança alguém de quem discordamos e questionada quando alcança alguém de quem gostamos.


Se o critério muda conforme o réu, o partido, a influência ou a conveniência, já não estamos diante da mesma justiça — estamos diante de interpretações moldadas pelas paixões humanas.


O problema não é a justiça ter poder.


Ele começa quando o poder se acostuma a não prestar contas a ninguém.


Uma sociedade madura não precisa de uma justiça que pense como ela.


Precisa de uma justiça capaz até de contrariá-la quando a lei assim exigir.


Precisa de magistrados que suportem a solidão de decidir contra a maioria, contra os amigos, contra os poderosos e, sobretudo, contra as próprias convicções pessoais.


Talvez a verdadeira cegueira não esteja nos olhos da justiça, mas na nossa incapacidade de enxergá-la sem as lentes da paixão.


Quando defendemos uma decisão apenas porque favorece o nosso lado, não estamos defendendo a justiça.


Estamos defendendo o resultado que desejávamos.


E quando condenamos uma injustiça somente porque foi cometida pelo adversário, mas silenciamos diante da mesma injustiça praticada pelos nossos, não estamos defendendo princípios.


Estamos apenas escolhendo conveniências.


No fim, talvez seja esse o maior desafio de qualquer democracia: aprender a desejar uma justiça que seja justa até quando nos contraria.


Porque a justiça que só parece justa quando vence o nosso lado não é justiça.


É torcida usando toga.