“A inteligência artificial não... Carloseduardobalcarse
“A inteligência artificial não precisa pensar para pensar por você”
A provocação do neurocientista Miguel Nicolelis de que a inteligência artificial não seria “nem inteligente, nem artificial” atinge um problema maior do que o nome dado à tecnologia.
Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.
A questão mais urgente não é saber se a máquina pensa. É descobrir quanto do nosso pensamento estamos autorizando a máquina a substituir.
Inteligência, em sentido psicológico, envolve aprender, raciocinar, compreender, resolver problemas e adaptar-se. Já “artificial” designa aquilo produzido pela intervenção humana, e não algo surgido espontaneamente na natureza.
Os atuais sistemas de inteligência artificial realizam operações extraordinariamente sofisticadas sobre enormes quantidades de dados. Reconhecem regularidades, calculam probabilidades, estabelecem relações e produzem respostas que podem parecer compreensão. Mas aparência de compreensão e compreensão são problemas diferentes.
A máquina pode produzir uma resposta correta sem saber que está correta. Pode produzir uma resposta falsa com a mesma fluência.
E aqui começa o verdadeiro problema.
A inteligência artificial não precisa ter consciência para influenciar uma consciência.
Quanto mais convincente for a resposta, maior será a tentação de confundir fluência com verdade, precisão linguística com precisão científica e probabilidade estatística com conhecimento.
Por isso, talvez o maior risco da inteligência artificial não seja ela aprender a pensar como nós.
É nós desaprendermos a pensar sem ela.
Uma humanidade sem discernimento transforma ferramenta em autoridade. E quando terceirizamos não apenas a informação, mas também o julgamento sobre a informação, deixamos de utilizar a tecnologia e começamos silenciosamente a obedecê-la.
A máquina pode ampliar o conhecimento humano.
Mas não deveria receber automaticamente autoridade sobre ele.
A IA pode responder por você. O perigo começa quando você permite que ela decida o peso que a própria resposta merece.
Informação pode ser artificialmente produzida.
Autoridade não deveria ser artificialmente ou automaticamente concedida.
Carlos Eduardo Balcarse
Psicanalista, Educador, Escritor e Pesquisador
