Uma vez namorei um escritor a quem,... Bicalho

Uma vez namorei um escritor a quem, certa manhã, comuniquei os desejos mais profundos: quero não ser. Sem entender, disfarçou, riu e fitou a atenção para outro assunto. Escritor de araque! Se fosse escritor mesmo, saberia exatamente onde é esse não-lugar em que não se é! Onde não se vai para não ser! Saberia exatamente que caminho trilhar, pois, para ter desejo de escritor, deve-se não ser.


E, ao não ser, saberás da existência do vazio, do real. Saberás que ali, onde não se é, é que é a vida. Conhecerás os mundos profanos que teus leitores esperam — se o autor espera apenas leitores, espera em vão. Pode ler-me, mas será capaz de decifrar-me?


Afinal, de que servem as palavras senão para esconder aquilo que, de dia, se expressa no brilho ofuscante, no branco ríspido que reflete o sol nas superfícies dos átomos terrestres: a pura natureza divina? E, à noite, na vasta imensidão cósmica, a alma, em sincronia com o mar de energia, que viaja em busca de sentido e significado?


Se crês que, com esta viagem, desfrutarás apenas daquilo a que se chegou, és um homem enganado, que desperdiçou seu bilhete único simplesmente por não olhar pelas janelas do vagão.