Se não formos Cautelosos com o que... Alessandro Teodoro

Se não formos Cautelosos com o que Consumimos, nos transformarão num Amontoado daquilo que nem sequer existiu.
Há uma espécie de Servidão Moderna que não exige Correntes, apenas Distração.
Não nos ordena diretamente o que pensar; oferece-nos, incessantemente, aquilo sobre o que devemos pensar.
E, pouco a pouco, o pensamento deixa de ser uma atividade do espírito para tornar-se apenas o reflexo daquilo que recebemos.
Kant talvez nos lembrasse que a Maioridade Intelectual começa quando ousamos recorrer à própria razão.
Não basta possuir uma consciência; é preciso exercê-la.
Não basta ter opiniões; é preciso saber por que as temos.
Entre aquilo que nos chega aos olhos e ouvidos e aquilo que admitimos como verdadeiro, deveria existir o intervalo indispensável da reflexão.
Consumimos notícias, imagens, discursos, indignações, certezas e versões dos fatos numa velocidade que frequentemente não permite ao juízo respirar.
E, quando não examinamos o que recebemos, nos arriscamos a confundir informação com conhecimento, repetição com verdade e convicção com pensamento.
O perigo maior, entretanto, talvez não esteja na mentira evidente, mas naquilo que nunca existiu e, ainda assim, passa a ocupar espaço em nós.
Uma Realidade Fabricada pode tornar-se — psicologicamente — verdadeira quando repetida o bastante.
Podemos chegar ao ponto de defender acontecimentos que não testemunhamos, combater inimigos que não conhecemos e sustentar certezas que jamais submetemos ao tribunal da razão.
É assim que o indivíduo deixa de ser Autor do próprio pensamento e se converte em arquivo das ideias alheias.
Pensar, nesse sentido, é também resistir.
É interromper o fluxo.
É perguntar: quem disse?
Com que fundamento?
O que estou deixando de considerar?
Eu realmente concluí isso ou apenas fui conduzido a concluir?
A autonomia não significa desconfiar de tudo — isso é Ceticismo Apaixonado —, mas não entregar a ninguém o direito de pensar por nós.
Significa conservar a faculdade de julgar, inclusive quando a multidão já decidiu.
Significa compreender que liberdade não é apenas poder escolher entre aquilo que nos oferecem, mas possuir lucidez suficiente para questionar o próprio cardápio.
Talvez uma das formas mais discretas de Alienação seja justamente esta: consumir tanto conteúdo que já não sabemos distinguir o que pensamos daquilo que apenas lembramos ter visto ou ouvido.
Por isso, talvez seja necessário recuperar uma virtude quase esquecida: a cautela diante do que entra em nossa consciência.
Porque aquilo que consumimos não permanece do lado de fora.
As ideias repetidas moldam nossas categorias; as narrativas que aceitamos orientam nossos julgamentos; aquilo a que prestamos atenção participa, silenciosamente, da construção de quem somos.
E há uma diferença fundamental entre ser Informado e ser Formado.
O primeiro pode acontecer por acumulação.
O segundo exige discernimento.
No fim, a verdadeira liberdade talvez comece quando deixamos de perguntar apenas “o que estão dizendo?”
E passamos a perguntar:
“Por quais razões eu devo acreditar nisso?”
É nessa pequena distância entre o estímulo e o juízo que a Autonomia Humana encontra seu último abrigo.
