Chácara grande. Um quarto com banheiro... João Guilherme

Chácara grande. Um quarto com banheiro e banheira só meu. Escola boa. Um pastor-alemão e um pelo curto brasileiro felino desde filhotes sob meus cuidados e afeto. Livros; vários e variados livros. Uma sala repleta de livros. Lareira. Minha mãe e irmãos…


Um amigo. Mora perto. Nos conhecemos na escola. 1ª semana de carro. Minha mãe ou irmã mais velha dirigiam. Após alguns olhares cruzados no caminho escola-casa, passamos a ir e voltar juntos. Às vezes a pé. Às vezes de bike.


Brincamos juntos. Fazemos tarefas da escola juntos. Tanto na escola, quando em dupla, quanto deveres para casa — quando “separados”. Às vezes ele em minha casa. Às vezes eu na casa dele.


Gostamos um do outro…


[...]


Terminei meus exercícios de matemática. Deitei. Deixei a persiana levantada. Dormi admirando as estrelas. Acordei com os primeiros raios de sol. Cheirinho de cookies no forno. Céu em transição de cores. Um espetáculo comum. Um extraordinário ordinário. “Extraordinário” porque contemplava sereno e “satisfeito”. “Ordinário” porque felizmente normal. Era sábado.
Ele me chamou pra brincar.


[...]


—Falei com minha mãe e ela…
—O quê?
—Ela…
—Fala logo!
—Ela não deixou eu ir.
[Silêncio]
—Por quê?
—Ela disse que já passamos muito tempo juntos.
[Silêncio]
—Bom… então tá. Vou voltar pra minha casa. Tchau!
—Espera!
[Olhares fixos]
—É brincadeira!
—Aff! (Fez que não com a cabeça desviando o olhar pro lado)
Caminhando juntos em direção à casa na árvore, perguntei:
—Então, o que vamos fazer hoje?
—Ué! Não é óbvio? Beijar!
—Hã?!
—Quero dizer, brincar! Desculpe.
Ri, pensativo…


Depois do pique-pega, cabo de guerra, esconde-esconde e de competirmos para ver quem aguentava pular corda mais vezes; deitamos, exaustos, na grama fofa. Um ao lado do outro, olhando pro céu, debaixo da melhor sombra da melhor árvore dali.


[Silêncio]
Viramos o rosto um pro outro. Nos olhamos…
—Vou pegar uma água na casa!
Ele me pegou de leve pelo braço antes que eu levantasse totalmente minhas costas do chão.
[Silêncio]
Depois de um tempinho de introspecção, perguntei:
—O que foi?
"Do nada" ele me perguntou:
—Você já beijou alguém, Guilherme?
Estranho, porque todo mundo me chama de João, exceto minha mãe quando me chama pra comer.
—Não. E você?
Ele virou o rosto para o alto. Fez que não com a cabeça. Perguntei:
—Por quê?
—Minha mãe falou que eu não preciso namorar, me casar, ter filhos e constituir uma família se eu não quiser.
—A minha também. (Continuei)
—Ela falou que talvez eu fosse gostar de meninas… ou de meninos… ou de ambos.
—É… a minha também. Mas ela me disse que existem pessoas que não são "exatamente" ou meninos ou meninas...
—Aí ela me perguntou se eu já gostei ou gostava de alguém…
Ele virou o rosto pra mim. Eu estava olhando pras folhas cujo vento fazia tremeluzir a luz que chegava até nós em círculos. Pressenti algo diferente, mas não dei muita bola. Ele aguardava, pacientemente. Após um “passeio no mundo da Lua”, perguntei virando o rosto a ele:
—E aí, o que você falou?
—”Sim”.
—E ela? Ou melhor, de quem é?! (Inquiri ansioso)
—Você.


My Old Dream