NOCTURNO DAS PROFUNDEZAS ETERNAS. Autor:... Marcelo Caetano Monteiro

NOCTURNO DAS PROFUNDEZAS ETERNAS.
Autor: Marcelo caetano Monteiro.
Quando o dia expira em silenciosa agonia e a noite, soberana, estende seus mantos siderais, a brisa oceânica, em delicado murmúrio, desce dos confins do horizonte como um hálito antigo da Criação.
Nos augustos braços da santa Natura, a penumbra repousa sua fronte melancólica, e o mundo, vencido pela fadiga das horas, adormece ao som litúrgico das águas. O mar oscila em cadências imemoriais, enquanto a lua, vestida de argêntea magnificência, acende seus círios sobre o firmamento e derrama rios de ouro líquido sobre as espáduas inquietas das ondas.
Então rasga-se o véu escuro do espaço, e a claridade celeste, como bênção invisível, ameniza o ardor que dorme nas entranhas da terra, enquanto as procelas respiram junto às praias onde o infinito beija a matéria.
Ali permanece o oceano: arca insondável de enigmas, biblioteca líquida de mistérios, guardião de segredos que nenhum sábio decifrou por inteiro. Em suas profundezas dormem histórias sem voz, verdades sem nome, ciências ocultas que desafiam os séculos.
Gigante indômito e eterno, não conhece repouso nem esquecimento. Nem por um único instante interrompe sua marcha, pois acompanha o giro majestoso da Terra, essa peregrina azul suspensa no abismo cósmico. E as águas obedecem apenas às leis supremas que regem os astros e os mares, como se ainda escutassem, nas profundezas da noite, a voz ancestral de Netuno, senhor das correntes e das tempestades.
E nós, efêmeros viajantes da existência, que caminhamos sobre a crosta transitória do mundo, somos centelhas de uma energia maior, fragmentos conscientes do grande mistério universal. Basta contemplar o oceano para perceber que há uma inteligência silenciosa ordenando o movimento das marés, uma harmonia invisível que transcende os cálculos humanos.
Nenhum império, nenhuma máquina, nenhuma obra erguida pelas mãos dos homens poderá reproduzir tamanha grandeza. Mesmo que os séculos se acumulem como montanhas sobre montanhas, a perfeição das águas continuará inalcançável.
Pois existe uma ordem mais alta que governa os céus, sustenta a terra e pulsa nas profundezas do mar. Uma ordem que não se impõe pela força, mas pela sabedoria. Que não grita, mas conduz os mundos.
E diante dela, resta ao coração humano o sublime privilégio do assombro, a reverência do silêncio e a humilde certeza de que toda grandeza verdadeira nasce da eterna comunhão entre o Mistério, a Beleza e o Infinito.