Forca Cordas Inicialmente não... Maria Fernanda R. Vidal
Forca
Cordas
Inicialmente não identifico a localização
Me puxam
Cada vez mais aumentam a pressão
Sinto, sinto mais do eu gostaria
Sempre gratifiquei-me por ser alguém que sente intensivamente
Mas agora,
A dor foge do corpo e busca refúgio na mente
Não consigo ver o que me cerca
Nem tocar em mim mesma direito
Minhas mãos estão brancas
A circulação está com defeito
Percebo que formigo
Por toda parte de meu corpo
Ainda que não me identifique comigo
De adrenalina e dormência me entupo
Meu corpo está adormecido
Minha alma está cristalizada
Sinto um frio que não é gelado
E um calor que não me perturba queimado
Não sei aonde estou
O que eu sou
O que poderia ser?
A alma ou o corpo? Qual vai vencer?
Seguro com garra
O que me restou
Minha mente agarra
O que “teoricamente” eu sou
Segure
Grito, não grito
Com um volume que apenas os cães são capazes de escutar
Soa como um apito, não existe maneira de ignorar
Ignoram
Não escutam, quer dizer
Escutam, apenas escolhem abafar
Um grito de alma, escolha, identidade, um grito de ser
Pergunto-me: ser ou não ser? mas vou também ignorar
Bênção da ignorância
Me permite indescrever
É essa benção que hoje permite
Que eu morra sem ninguém ver
Não acho que o grito foi baixo de mais
Foi sem fôlego,
sem ar
Mas difícil de não escutar
Não sei se posso achar
Não sei se sei
Se posso saber
Não sei se posso
As palavras em minhas frases não-orais
Não tem coesão, coerência
Não têm formas rebuscadas ou coloquiais
A dor se tornou minha perceptível referência
Acho uma palavra no fundo do meu baú de vocábulos
Duas sílabas, Cinco letras
Consigo pronunciar :
Força
Penso por um instante que consigo achar o que preciso
Imediatamente relembro, me lembro, me entendo
Juro que tento ser conciso
Quando descubro, perco o alento
Não é essa palavra
Sei qual é, ouço no interior de meus tímpanos
de dentro a palavra sai oca:
Forca
Seu ar acabou
Descobriu tarde demais
Em vão ela gritou
Portanto agora, não gritará mais
- Maria Fernanda
