Coleção pessoal de maria_fernanda_r_vidal
Consumado
Você me amou
Com sangue
E me salvou
Com graça
Me limpou, restaurou
E aceitou
Meu futuro é um papel
Uam página, uma folha
Que estará lá escrito o meu nome
No livro da vida
Serei recebido no céu e
Todos olharão o registro
Pecados e mais pecados
Mas, no final da folha estará escrito
PERDOADO
- Maria Fernanda
Águas secas
Estou me afogando
Em um longo e profundo mar
Estou longe, no fundo
Nem mais luz consigo enxergar
Sinto a areia tocando minhas costas
Percebo que não consigo respirar
Não levanto, não sento, não me movo
Nem sei como ainda estou lá
Percebi que não sei como cai
Não sei quando cai
Há quanto tempo realmente
estou aqui
Não me lembro de chegar,
Não me lembro de sair
Não percebo afundar
Ainda sim estou ali
Sem o oxigênio
Sem o costume de inspirar
Vem como as ondas o desespero
De pensar em me sufocar
Tento sugar, puxar algum ar
Não consigo,
Não existe nada
Percebi que não estou na água
Pensei ser mar por não respirar
pela escuridão, pela lentidão com que afundei
mesmo assim nao e agua
nem é possível se molhar
Me percebo seca
seca de água, de ar, de força
não estou pálida
mas lhe digo, inteiramente ávida
Ávida por Água
Ávida por ar
Não tenho nenhum dos dois
Morrerei sem poder nada
Se estivesse na terra
Poderia correr Ceca e Meca
Não tenho base, não tenho chão
Anote em meu Caixão
Em meu testamento
quero destacado
Não morri seco, não morri molhado
Apenas afundei em Águas secas
- Maria Fernanda
Pronta
Essa palavra tem peso
Profundidade
Forma, que geralmente
Não consigo interpretar
São seis letras
Únicas duas sílabas
Que pesam como litros de lágrimas
E quilos de gordura
Dependendo do contexto
Ela mudará sua interpretação
Pronta para o que ?
Para quem ?
Quando?
Existe um quando?
Existe alguém?
Perguntas
São muitas, infinitas
Não possíveis de contabilizar
Não são números
São palavras, feitas do falar
Construída de experiência
De tempo
Força, coragem
e muito talento
Acho que não conheço esse vocabulário
E muito rebuscado para mim
Enquanto uns dizem a todo horário
Eu recuo até para dizer SIM
Se não me suporto
Se não me comporto
Como seria capaz
De me definir pronta
Pronta para amar alguém?
Se ame primeiro
Pronta para elogiar alguém?
Se aceite primeiro
Pronta para crescer?
Pronta para falar?
Aprenda ouvir
desafio
Se es insuficiente para você mesma
Como serás suficiente para alguém mais?
São muitas perguntas, perguntas sagaz
Com elas fico tonta, algum dia quem sabe, me chame Pronta
Por enquanto confirmo que não sou capaz
- Maria Fernanda
Forca
Cordas
Inicialmente não identifico a localização
Me puxam
Cada vez mais aumentam a pressão
Sinto, sinto mais do eu gostaria
Sempre gratifiquei-me por ser alguém que sente intensivamente
Mas agora,
A dor foge do corpo e busca refúgio na mente
Não consigo ver o que me cerca
Nem tocar em mim mesma direito
Minhas mãos estão brancas
A circulação está com defeito
Percebo que formigo
Por toda parte de meu corpo
Ainda que não me identifique comigo
De adrenalina e dormência me entupo
Meu corpo está adormecido
Minha alma está cristalizada
Sinto um frio que não é gelado
E um calor que não me perturba queimado
Não sei aonde estou
O que eu sou
O que poderia ser?
A alma ou o corpo? Qual vai vencer?
Seguro com garra
O que me restou
Minha mente agarra
O que “teoricamente” eu sou
Segure
Grito, não grito
Com um volume que apenas os cães são capazes de escutar
Soa como um apito, não existe maneira de ignorar
Ignoram
Não escutam, quer dizer
Escutam, apenas escolhem abafar
Um grito de alma, escolha, identidade, um grito de ser
Pergunto-me: ser ou não ser? mas vou também ignorar
Bênção da ignorância
Me permite indescrever
É essa benção que hoje permite
Que eu morra sem ninguém ver
Não acho que o grito foi baixo de mais
Foi sem fôlego,
sem ar
Mas difícil de não escutar
Não sei se posso achar
Não sei se sei
Se posso saber
Não sei se posso
As palavras em minhas frases não-orais
Não tem coesão, coerência
Não têm formas rebuscadas ou coloquiais
A dor se tornou minha perceptível referência
Acho uma palavra no fundo do meu baú de vocábulos
Duas sílabas, Cinco letras
Consigo pronunciar :
Força
Penso por um instante que consigo achar o que preciso
Imediatamente relembro, me lembro, me entendo
Juro que tento ser conciso
Quando descubro, perco o alento
Não é essa palavra
Sei qual é, ouço no interior de meus tímpanos
de dentro a palavra sai oca:
Forca
Seu ar acabou
Descobriu tarde demais
Em vão ela gritou
Portanto agora, não gritará mais
- Maria Fernanda
