MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL Capítulo... Miguel Chiyo Tomás

MONÓLOGOS DE UM MISERÁVEL


Capítulo III: Perguntem à Sociedade


A sociedade grita; os facínoras respondem.


Por mais que o homem finja lutar pela paz, pela justiça, por uma ordem mundial: o caos persiste. Não é intermitente. É contínuo. Não se trata de um acidente: é o alimento da espécie.


O ser humano fortalece-se na destruição do outro.


Nutre-se do sofrimento alheio, expande-se na dor do semelhante e só se percebe vivo quando rebaixa outro ser humano.


As guerras são inevitáveis: civis, mundiais, familiares, mentais. Sempre haverá guerra.


A desigualdade não é uma falha do sistema: é o seu motor.


Não há projeto de sociedade justa, porque não há desejo genuíno de justiça, apenas ambição disfarçada.


O humanismo é uma bela mentira.
Uma ideia que pressupõe que o ser humano é capaz de humanidade. Não é.
Ele deseja poder. Fala de amor, mas anseia dominar. Prega igualdade, mas, em silêncio, aspira à superioridade. Reclama liberdade, mas apenas a sua. E a dos outros? O humanismo fracassou porque jamais teve fundamento real. Hoje, não passa de um ornamento filosófico destinado a encobrir o egoísmo coletivo.


Um governo busca subjugar outro.
Um “amigo” tenta controlar o outro.
Um marido trai. Uma esposa engana.
Uma criança assiste à morte de alguém amado e, desde cedo, aprende que o mundo é um matadouro de afetos.
Um motorista provoca um acidente. A polícia ignora.


Onde está o humanismo aqui? Onde reside o amor ao próximo?


A misantropia não é escolha. É consequência.


É a única resposta lúcida diante da decomposição social. É o reconhecimento de que a crueldade humana é natural, inevitável — funcional à própria engrenagem da civilização. E os deuses do nosso tempo — potências econômicas, impérios tecnológicos, elites globais já delineiam o futuro com frieza clínica: selecionarão os “tipos humanos” que lhes são úteis e eliminarão, sem hesitação, os excedentes, os descartáveis.


A matança será limpa. Administrativa. Legal.


A hipocrisia, outrora vício, tornou-se virtude social. Confunde-se, inclusive, com inteligência. O mundo não se importa com o que você é: apenas com o que possui, com o que produz, com o que pode oferecer.


O ser humano é, por natureza, invejoso, ciumento, malicioso.


Se necessário, sacrificará o vizinho, o colega, o irmão ou o amigo para preservar os seus. Mas “os seus” são sempre os mais fortes: os filhos dos chefes, os aliados dos líderes, os protegidos dos impérios.


E os outros?


Camponeses, serventes, pedreiros, pescadores; mártires anônimos.
Esquecidos. Sepultados com honras simbólicas e desprezo real. Seus filhos perpetuarão a condição de servidão no mesmo sistema que os consumiu.


Eis a sociedade. Eis a civilização.


Um vasto teatro imundo, onde o “social” não passa de máscara e o “humano”, de pretexto.


O verdadeiro homem nobre é aquele que renuncia.


Que se afasta dos vícios do convívio.
Que prefere a solidão à farsa da amizade.
A amizade, como toda relação humana, funda-se no interesse. É uma barganha travestida de afeto. Quem oferece amizade, em alguma medida, pretende adquirir algo.


E a confiança?


Nicolau Maquiavel já disse o suficiente:


“A confiança é a ponte mais curta para a traição.”


Ser social é ser predador;
Ser social é ser oportunista;
Ser social é ser imoral;
Por isso, sou misantropo.


Por isso, adoto o anti-humanismo. Eis a minha identidade. O meu estado natural.
A convivência humana é uma farsa sustentada por egos famintos: uma comédia grotesca de vaidades e disputas vazias.


A sociedade cultiva a mediocridade, pune o pensamento profundo e sufoca qualquer impulso de interioridade.


Se existe alguma forma de redenção — e disso duvido — ela reside no afastamento da massa, na solidão deliberada, na renúncia ao convívio.