FIBROMIALGIA Ela acorda antes do... Marcilene Dumont Brasil_...

FIBROMIALGIA


Ela acorda antes do despertador.
Não porque queira — mas porque o corpo chama.


A fibromialgia não grita, ela sussurra em forma de peso.
É como se a noite tivesse deixado pedras espalhadas pelos músculos. Levantar não é apenas sair da cama. É negociar com o próprio corpo. É dizer: “Vamos, mais um dia.”


Ela aprende a se erguer devagar, como quem respeita uma maré.
Há dias gelados em que o frio parece morar dentro dos ossos. Há dias cinzentos em que o mundo olha para ela e diz: “Mas você nem parece doente.”
E ela sorri — aquele sorriso treinado, que esconde tempestades.


A fibromiálgica luta contra algo invisível.
E lutar contra o invisível exige uma coragem que ninguém aplaude.


No espelho, às vezes vê cansaço.
Mas também vê força.
Vê uma mulher que, mesmo com o corpo pedindo repouso, escolhe colocar cor no vestido. Um batom mais vivo. Um brinco que dança com a luz. Se o mundo insiste em cinza, ela responde com amarelo. Se o clima fecha, ela procura o sol — nem que seja o sol da própria fé.


Ela aprende sobre tolerância — não apenas a dos outros, mas a dela consigo mesma.
Aprende que produtividade não define valor.
Aprende que descansar não é fracassar.
Aprende que sentir dor não é ser fraca.


E quanto aos outros…
Ah, como seria bonito se todos entendessem que a dor invisível também dói. Que a fadiga não é preguiça. Que a sensibilidade não é drama. A pessoa com fibromialgia não quer pena — quer compreensão. Quer que respeitem seus limites sem que precise justificar cada passo mais lento.


Ainda assim, ela segue.
Com resiliência de quem já enfrentou invernos longos.
Com a esperança de quem sabe que o clima muda.
Com a firmeza de quem transforma dor em delicadeza.


Porque viver com fibromialgia é, todos os dias, escolher florescer em meio ao próprio inverno.