O ego tem uma tendência estrutural a... Davi Roballo (D.R)

O ego tem uma tendência estrutural a hipercatexizar o próprio sofrimento e a descatexizar o alheio. A dor própria ocupa o campo inteiro da percepção; a do outro aparece como dado periférico, quantificável de fora, sempre menor do que parece. Essa distorção não é crueldade — é limite do aparato perceptivo que só acessa com plena intensidade aquilo que habita por dentro. Mas quando essa percepção é interrogada e começa a ceder, nasce o que se poderia chamar de humildade clínica: a consciência de que cada sujeito atravessa abismos que não aparecem na superfície, que nenhum peso é leve para quem o carrega, e que o sofrimento não tem hierarquia objetiva — apenas perspectivas.