O que sobraria de nós, se... Alessandro Teodoro

O que sobraria de nós, se pudéssemos desumanizar todos os que julgamos desprovidos de santidade?
Talvez restasse muito pouco — ou nada — não deles, mas de nós mesmos.
Porque, ao retirar do outro a sua condição humana, não estamos apenas julgando; estamos também esculpindo os contornos do nosso próprio abismo.
A desumanização nunca é um ato isolado: ela reverbera, ecoa, corrói silenciosamente aquele que a pratica.
É tentador acreditar que a falha alheia nos autoriza a elevar muros morais, como se pudéssemos habitar um território puro, livre das contradições que enxergamos nos outros.
Mas essa pureza é uma ficção assustadoramente confortável.
A linha que separa o “santo” do “profano” não é um muro — é um fio tênue que atravessa cada um de nós.
Quando negamos humanidade ao outro, fazemos isso porque reconhecemos, ainda que inconscientemente, algo dele em nós que nos incomoda.
A imperfeição alheia funciona como um espelho indesejado.
E, incapazes de sustentar esse reflexo, preferimos quebrá-lo — mesmo que isso custe a nossa própria integridade.
No fim, desumanizar é uma forma de fugir.
Fugir da complexidade, da empatia, da responsabilidade de reconhecer que ninguém é inteiramente digno de santidade — e, ao mesmo tempo, ninguém é completamente destituído dela.
Se pudéssemos, de fato, retirar a humanidade de todos os que julgamos indignos, talvez descobríssemos tarde demais que éramos os últimos a permanecer… e já não haveria mais nada de humano em nós para sustentar essa medonha solidão.
