“A Travessia” Atravessei o oceano,... Marcilene Dumont Brasil _...

“A Travessia”


Atravessei o oceano, não apenas com malas e documentos,
mas com memórias costuradas na pele,
com o cheiro dos meus filhos guardado no coração.
é verdade —que
cada riso, cada lágrima, cada batalha vencida
vieram comigo, como tatuagens invisíveis da eternidade.


Cada visto conquistado foi mais que um carimbo —
foi uma cicatriz que virou vitória.
Cada não que ouvi foi a voz do mundo tentando me deter,
mas, por dentro, ecoava outra voz, suave e firme:
“Eu estou contigo. Continua. Você é resiliente.”


E eu continuei.
Representando o Brasil em terras estrangeiras,
erguendo minhas raízes como bandeira,
mostrando ao mundo que a fé fala todas as línguas.


Vieram as burocracias, as frustrações,
os dias em que a esperança parecia se esconder —
mas Deus me vestia de coragem,
me lembrava que até o impossível tem nome,
e esse nome é fé.


Entre um país e outro, abracei árvores,
ouvi o sussurro da criação dizendo que eu não estava só.
Em cada folha, um recomeço.
Em cada pessoa que Ele colocou no meu caminho,
um lembrete de que o amor vence fronteiras.


Recordo a profecia da minha mãe —
aquela mulher de olhar de eternidade —
que me disse que eu viajaria o mundo.
E quando tudo parecia ruir,
quando o divórcio me rasgava,
quando traições e mentiras me empurravam para o chão,
Ele me mostrou uma pedrinha em forma de pé.
Um sinal.
Um passo de cada vez —
e eu segui.


Hoje, a mulher que um dia pensou que ia sucumbir
é a mesma que floresce em solo estrangeiro,
que carrega o Brasil nas mãos e o céu nos olhos.
Sou ponte entre mundos,
sou eco da promessa,
sou o sim de Deus onde tantos disseram não.


E sigo.
Com a alma em travessia,
com o coração rendido à certeza
de que nada é impossível
para quem acredita no invisível.