E se a Enxurrada de Aberrações... Alessandro Teodoro

E se a Enxurrada de Aberrações estiver substituindo as outras por puro capricho em testar a nossa Humanidade?
Talvez não seja apenas o absurdo que se acumula diante dos nossos olhos, mas a forma como nos acostumamos a ele.
Uma aberração já não causa o mesmo espanto quando outra, ainda mais grotesca, surge logo em seguida.
E assim, pouco a pouco, o inaceitável deixa de ser exceção e passa a disputar espaço com o cotidiano — não porque deixou de ser grave, mas porque nos tornamos menos sensíveis a ele.
Há, nisso, um risco silencioso: o de confundirmos resistência com indiferença.
Resistir é não normalizar o que nos fere como sociedade; já a indiferença é o estágio em que deixamos de reagir, como se o choque tivesse perdido a validade.
E, quando isso acontece, não são apenas os fatos que se degradam — é também a nossa capacidade de reconhecê-los como tal.
Se cada nova distorção parece vir para substituir a anterior, talvez o verdadeiro teste não esteja na intensidade das aberrações, mas na constância da nossa consciência.
Permanecer lúcido em meio ao caos exige mais do que opinião: exige coragem para não se anestesiar.
Porque, no fim, a pergunta mais incômoda não é sobre o que estão fazendo conosco — mas sobre o que estamos deixando de sentir diante disso.
